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Após 4 anos, ex-vocalista do Cranberries volta à cena mais madura e com rock experimental
Terça-Feira, 28/08/2007, 05:25am (GMT-12)

Após quatro anos se dedicando à vida em família, Dolores O'Riordan, ex-vocalista do Cranberries, volta aos palcos com a veia existencialista que lhe é peculiar desde os tempos da antiga banda. O marco da nova fase da carreira são as letras, agora fruto de uma fase mais madura da vida, e o experimentalismo na sonoridade, mais voltada para o rock. O primeiro álbum solo desde o fim do grupo, em 2003, é o "Are You Listening", cuja turnê de lançamento no Brasil começou em Porto Alegre (25) e termina em São Paulo nesta terça-feira (28).

O'Riordan explicou algumas canções do novo trabalho --sobre o que falam os temas e como foi o processo de composição. Um dos hits atuais é "Ordinary Day". Ela também adiantou que reviverá clássicos do seu grupo de origem. Estarão no repertório da apresentação "Linger", "Dreams", "Ode To My Family" e "Zombie", por exemplo.

Em entrevista ao UOL, a irlandesa de Limerick também fala da relação com as filhas e pessoas queridas que já morreram, filosofa sobre o sentido da vida e revela quais suas influências e preferências musicais na atualidade --entre elas Lily Allen, Amy Winehouse e Dido. E ainda protesta por mais "poder às mulheres" no mundo da música. Veja a íntegra:

UOL - Como você define o álbum "Are You Listening" e a música que você canta hoje? É mais pop ou rock and roll?

Dolores - Acho que tem um limite nele, talvez, momentos mais obscuros no álbum, e, de alguma forma, acho que é mais experimental do que o Cranberries. Com esse álbum eu cresci muito e costumava criar as músicas, então podíamos experimentar mais. Eu acho que nas letras evoluí para outros níveis. Enquanto você cresce, você encontra outros tipos de objetivos para desafiar. Então é bem diferente. É isso o que importa.

UOL - É uma música mais alternativa?

Dolores - Não, acho que é um pouco mais rock.

UOL - Você cantará músicas do Cranberries no show. Você podia adiantar algumas músicas do repertório?

Dolores - Eu cantarei a maioria dos hits: "Linger", "Dreams", "Ode To My Family", "Zombie", entre outros.

UOL - Por que demorou tanto para que você lançasse um novo álbum desde que o Cranberries acabou em 2003?

Dolores - Eu realmente comecei a curtir a minha vida fora do mundo do entretenimento. A vida continuou e eu decidi aproveitar para passar mais tempo com a minha família, em casa. E eu realmente não sabia que eu iria voltar para o mundo do entretenimento e para os palcos naquela época. Mas eu somente senti que precisava cuidar mais da minha vida afetiva e simplesmente segui a minha intuição. Naquele momento ela me dizia que eu precisava ficar mais em casa, e finalmente tentando entender quem eu sou como intérprete. Foi um tempo para tentar me encontrar um pouco mais. E foi muito bom passar quatro anos só em casa, com a minha família e em tempo integral como mãe.

Nesse tempo, escrever se tornou um hobbie para mim de novo. Basicamente eu só escrevia quando as crianças estavam dormindo ou tarde da noite. É difícil escrever quando elas estão por perto, porque elas vêm e querem tocar o piano com você. Foi ótimo porque eu estava sentindo que não havia nenhuma pressão. Era mais divertido.

UOL - Qual a diferença da Dolores de antes para a Dolores de hoje?

Dolores - Todos nós mudamos. Em cinco anos você é diferente do que costumava ser, eu sou diferente também, todos nós crescemos. Quando ficamos velhos nós aprendemos mais, mas, ao mesmo tempo, nos damos conta de como sabemos de pouca coisa e que o futuro é muito menos previsível do que pensamos. Coisas que você não liga quando é mais novo e, quando você fica mais maduro, você percebe como a vida é cheia de fragilidades.

UOL - Você compôs todas as músicas de seu novo álbum?

Dolores - Sim.

UOL - Como você as compôs?

Dolores - A maioria delas no piano.

UOL - E as letras é você quem faz?

Dolores - Sim, sou eu.

UOL - Você pode nos explicar como são algumas músicas do seu novo álbum?

Dolores - A primeira canção se chama "Ordinary Day" e fala de quando eu tive meu último bebê, de dois anos de idade [Dolores é mãe de três meninas: Taylor Baxter, nove anos, Molly, seis anos, e Dakota Rain Burton, dois anos]. Eu estava refletindo em como eu cresci tão rápido e em como as minhas filhas cresceram tão rápido. Crianças crescem muito rápido, e a vida fica mais rápida quando você tem filhos, porque você fica mais ocupado. E eu acho que estava refletindo em como o futuro delas é imprevisível e em como a vida é frágil. E indo pela vida, meus sentidos vão crescendo sobre essas três pequenas meninas... Eu tenho meus altos e baixos e olho para elas pensando: o que elas vão encontrar por aí?

Outra faixa é "When We Were Young". Quando você é jovem e está crescendo, seus pais fazem tantas coisas por você, mas você nem percebe, até você se tornar pai e mãe. Você não se dá conta de quanto eles fizeram por você. E você não tem a menor idéia de quanto eles te amam, até você ter filhos. Então a vida às vezes é assim: você precisa ter experiência para poder ver algumas coisas, sabe?

Outra música se chama "Angel Of Fire". Na minha vida eu perdi muitos amores, entre eles meus avós, a geração mais velha. Mas, enquanto as pessoas mais velhas vão embora, há muitos jovens chegando na minha família. E você começa a refletir sobre a evolução do ciclo. E toda a idéia de se perguntar onde as pessoas que você ama estão quando partem. Então um dia você parte também. É um tipo de reflexão filosófica sobre o ciclo da vida. E a vida após a morte.

Escrevi "Black Widow" quando a minha sogra morreu. Ela morreu de câncer. Foi uma época muito triste e difícil na família durante muito tempo. Todo mundo passa por essas coisas. São as experiências que você tem, e a vida tem de continuar.

UOL- De que músicos e artistas você colhe influências?

Dolores - Quando eu era adolescente, adorava The Smiths e Depeche Mode e coisas desse tipo. Mas aí eu fui crescendo e escutando mais rock mesmo, como Led Zeppelin, AC/DC, por exemplo.

Eu também sou muito aberta e ouço Frank Sinatra e Elvis Presley. Entre as cantoras, gosto muito da voz de Sinead O'Connor, Annie Lennox e Kate Bush.

Da nova geração, eu gosto bastante de Lily Allen, Amy Winehouse, Dido... Há tantas ótimas cantoras hoje, estamos numa boa época, de verdade. Para nós, mulheres, é bom ver tantas mulheres cantando, sabe? Mais poder às mulheres!

UOL - Você conhece algum músico brasileiro? Você já veio ao Brasil antes?

Dolores - Eu não conheço realmente nenhum músico brasileiro e nunca vim até aqui antes.

UOL - O que você sabe sobre o público do Brasil? Quais são suas expectativas para o show?

Dolores - Espero que todos chacoalhem muito, pois no Chile foi incrível! E na Argentina também foi impressionante! Espero que seja emocionante de alguma forma.
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