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Há mais de uma década o mercado fonográfico brasileiro começou a sua mais radical transformação. Compositores, bandas, produtores, críticos e todos os envolvidos na complexa rede que dá sustentação à música brasileira viram os modos de feitura e distribuição implodirem, dando origem a uma nova configuração, que passou a ter na autonomia dos artistas sobre suas obras uma histórica conquista. Sem falar que o empresariado especializado não deixou de exercer mais o poder que tinha antes; foi, portanto, uma crise positiva. A despeito da pequena revolução, essa autonomia também oculta algumas peculiaridades. Os “movimentos musicais” criados pelo mercado fonográfico, como o pagode, a axé-music, o sertanejo estão suspensos, como resultado direto da perda de poder da indústria “oficial” da música. Mas não só: essa mudança também se relaciona com o amadurecimento geral da população do país, afinal política e cultura estão ligadas de forma profunda, ainda que isso seja constantemente esquecido. As pessoas agora escolhem o que querem ouvir com mais liberdade, como mostra uma pesquisa divulgada pela “Ilustrada”, da “Folha de S. Paulo” (22/7/2007). O que poderia ser acrescentado ao resultado da pesquisa, é que essas escolhas em nada se distinguem daquelas impostas em épocas recentes e que, ao contrário, mesmo compositores lançados pelas multinacionais da indústria fonográfica ainda aparecem na pesquisa, como é o caso de Zezé Di Camargo. Ocorre que, no lugar dos movimentos artificialmente criados, outros quase movimentos despontaram de modo independente na cena da música, ora positivos ora nem tanto: o mangue-beat de Chico Science é o exemplo mais importante; alguns socialmente determinantes e vivos, como o rap, e outros, que parecem não passar de apenas um grupo, como o calypso. Pensando no mangue-beat como um último movimento dotado de um líder, podemos dizer também que foi a última aparição de um cantor-compositor nos moldes da MPB tradicional. Os outros dois, rap e o calypso, são forças midiáticas de grande intensidade, mas não se equivalem de um ponto de vista social. Por pouco a banda Calypso não foi gestada num escritório empresarial. Poderia ter sido -prova inequívoca é que recentemente a gravadora Som Livre contratou esta banda-, mas é mais difícil imaginar os Racionais MC’s numa reunião com João Araújo, o empresário da gravadora. Não há nenhuma condenação no fato de a música comercial brasileira ser... comercial. De certa forma toda a MPB o é, por princípio. O que o contrato da banda Calypso com uma gravadora ligada à rede Globo mostra é que, nesta área, as coisas se movimentam de forma extremamente rápida e quase sempre de modo pouco compreensível. O fato de ter vendido milhões de discos sem nenhum vínculo contratual e agora, público consolidado, vendas estáveis, a banda tenha resolvido assinar contrato é um lance comercial meio inexplicável. Quem reflete sobre a música popular no Brasil, fora os puristas, podia ver na banda um tipo de “resistência”, agora perdida. Pura ingenuidade. No entanto, contra a afirmação do antropólogo Hermano Viana de que “a pesquisa revela algo que já percebíamos, mas não tínhamos dados para provar: há uma nova realidade na indústria cultural brasileira”, parece que há um grande equívoco. Há tempos programas de TV aberta já haviam levado Joelma e Chimbinha para exibições em nível nacional. Faustão (Globo), Gugu (SBT), Gilberto Barros (Bandeirantes, esse uma espécie de “mecenas” da banda), todos sacaram a força do ritmo e a empatia absoluta que causava em crianças e até em seus pais. A dupla forçou o convite, atropelou o esquema “normal” -antes intermediado por empresários e contatos oficiais com gravadoras- e arrombou a porta; ponto para eles. Uma vitória? Apenas pessoal, jamais social. Fora os grandes cânones da MPB, ninguém vai a um programa de auditório na TV aberta no Brasil sem que seu apelo popular seja reconhecido e consolidado. Quer dizer, a banda Calypso é uma espécie de substituto independente dos falsos movimentos de antes, uma nova febre, de menos extensão que as anteriores, ainda que seja importante por revelar um ritmo amazônico-caribenho que, de outro modo, jamais chegaria aqui -a não ser como chegou o açaí: com banana e granola e sem farinha de tapioca. Acontece que entre uma criação industrial e um fenômeno independente existe o público, o povo. Ninguém lembra muito dele. Aí as coisas não apenas deixam de ser tão passíveis de ordem, como elas são completamente imprevisíveis. É aí que entra o rap. Uma coisa é o Calypso, o Calcinha Preta e afins, outra é Mano Brown e o Rappin’ Hood. Sem essas distinções mínimas, podemos achar que tudo é válido, tudo é bom, e não é, porque senão bastaria dizer que se trata de preconceito de classe, e aí como explicar que “Chega de Saudade” seja uma canção diluída na memória coletiva, tendo sido criada no interior de um movimento burguês carioca como a bossa nova? Tom Jobim tem memória. Da mesma forma, como parece querer nos convencer, parte da crítica musical ligada à TV Globo, representada por Hermano Vianna, não é porque a banda Calypso encerra uma vitória em suas conquistas pessoais -Chimbinha tem uma história similar a Zezé di Camargo e a outros que “vencem na vida”- que por si só ela tem importância histórico-cultural. Se fosse assim, porque não se louva um negro pobre que vendeu milhões de discos e hoje segue uma carreira internacional sem precedentes, como Alexandre Pires? Simples, porque a crítica intelectual parece ter se cansado da ditadura Rio-São Paulo e resolveu abraçar a Amazônia, mas não percebe o quanto de etnocentrismo existe nessa postura “salvadora”. A Amazônia não faz música ingênua, o calypso é o resultado pueril de mais de 30 anos de história do brega paraense, que se construiu sobre uma auto-ironia e riso de si extraordinários e que agora são matéria da antropologia “global”. O rap, que tem uma importância capital para o país neste momento, não serve de exemplo para a TV Globo. Seu discurso antimelódico é a única força vital que milhões de pessoas têm para se expressar com orgulho diante da situação social que os oprime. Mano Brown é sua voz política. E não adianta tentar aliviar as coisas, levando-os para os programas de celebridades. É um tiro no pé. UOL
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