| Sabendo | ||||
|
Em busca de alguns discos perdidos Quarta-Feira, 26/12/2007, 01:53am (GMT-12)
Fim de ano é sempre aquela agonia. As gravadoras despejam uma avalanche de CDs e DVDs musicais, a temporada de apresentações ao vivo transborda de opções (tanto é que um show sensacional como o do LCD Soundsystem foi visto por uma platéia minguada). Em suma, é tanta coisa ao mesmo tempo que atordoa o público consumidor de música e quem trabalha na cobertura da área. Não dá para acompanhar tudo. Agora que passou a histeria natalina e o circo se desarma, vale a pena recuperar alguns CDs que ficaram para trás, e não ganharam a devida atenção por falta de oportunidade e/ou de espaço no jornal. É até melhor, porque são álbuns para serem apreciados sem pressa e soam mais interessantes a cada audição.
Dois deles envolvem a compositora e cantora Joni Mitchell: Shine, seu primeiro álbum de inéditas em dez anos, e River: The Joni Letters, do jazzman Herbie Hancock, com várias cantoras convidadas, entre elas a autora dos versos que inspiraram o projeto do pianista. Os outros são White Chalk, de PJ Harvey e o feliz encontro de Robert Plant e Alison Krauss (Raising Sand) - todos da gravadora Universal. E tem ainda Magic (Sony/BMG), que atesta a boa forma de Bruce Springsteen, aos 59 anos, à frente da lendária E Street Band. São CDs lançados no Brasil há algumas semanas, que têm em comum alguma relação com a folk music e devem sobreviver à virada do ano. Joni Mitchell, que já foi homenageada com um tributo heterogêneo em 2007, voltou a registrar novas composições depois de dez anos. Shine certamente não vai entrar para a história como um de seus melhores álbuns, porque é cheio de altos e baixos, mas há outros CDs infinitamente inferiores que ganharam mais espaço na mídia quando não mereciam nenhum. Como cantora, Joni já não está no momento mais sublime, mas é sempre agradável apreciar a beleza de certos versos e melodias como a de This Place. Além disso, ela fez uma digna adaptação de seu poema predileto de Rudyard Kipling, If, que encerra o álbum com a sutileza que o abre, a bela faixa instrumental, One Week Last Summer. Em seguida vem a melhor do álbum, This Place. A seqüência passa a ficar irregular, mas faixas menos entusiasmantes até servem de escada para tornar outras melhores, como Bad Dreams e a faixa-título, em lindos arranjos etéreos. A concepção de River, de Herbie Hancock, supera todas as versões de A Tribute to Joni Mitchell (também lançado este ano), que juntou desde Sufjan Stevens até Caetano Veloso. Em vez das melodias, Hancock partiu das letras de Joni para montar parte do repertório do álbum. Oito de suas canções ganharam distintas versões com vocais de Norah Jones (Court and Spark); Tina Turner (Edith and the Kingpin), a mais surpreendente de todas; Corinne Bailey Rae (River) e até a brasileira Luciana Souza (Amelia). A própria autora recria Tea Leaf Prophecy e Leonard Cohen encerra o CD declamando a letra de The Jungle Line. Apesar de ter a voz de cantoras famosas como chamariz, o que se sobressai em muitas faixas é o piano de Hancock e seus soberbos acompanhantes - Wayne Shorter (saxes soprano e tenor), Dave Holland (baixo), Vinnie Colaiuta (bateria) e Lionel Loueke (guitarra). Duas das quatro faixas instrumentais não são de Joni - Solitude (Edgar de Lange/Duke Ellington/Irving Mills) e Nefertiti (Wayne Shorter) -, e estão brilhantemente adequadas ao projeto. PJ HARVEY Com um surpreendente approach folk, até mais emocional do que atualmente se vê em Joni Mitchell, grande ícone feminino do gênero, PJ Harvey tem provocado certo estranhamento com o belo White Chalk. Há quem não se conforme por ela ter "abandonado o rock" e se apresentar tão comportada, introvertida e aparentemente frágil num álbum cheio de lirismo, delicadeza, versos densos, muito som de cordas (piano, guitarra acústica, harpa) em arranjos de vocais profundos, melancólicos e etéreos. Distante da imagem forte feminina armada de sua poderosa guitarra, ela divide a produção com Flood e o velho e bom parceiro John Parish. Algumas letras vêm recheadas de referências familiares e sentimentais - a mãe em Grow, Grow, Grow, o avô em To Talk to You, os amigos no tema de despedida de Before Departure -, noutras ela se reparte entre a perda de Deus (Silence) e o diabo divagando em sua alma (The Devil). A faixa-título é cortante como a aresta de uma folha de papel, Dear Darkness chega perto, The Piano prepara o ambiente para explodir no grito final de The Mountain. Uma espécie de vinheta no meio do CD, a linda Broken Harp tange como uma síntese: Por favor, não me repreenda / Pelo tanto que minha vida se tornou vazia / Não sei realmente o que aconteceu / Notei seu desapontamento ao ser mal interpretada / Eu te perdôo. Talvez Polly Jean pareça irreconhecível até para ela mesma, como diz em outro trecho da letra. Mas isso é que é bom nela: nunca se repete. Só faz bom uso da experiência própria. Lauro Lisboa Garcia
|
||||