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Música 

Fernanda Takai rende homenagens a Nara Leão

Fernanda Takai revisita várias facetas de Nara Leão

Divulgação

Fernanda Takai revisita várias facetas de Nara Leão

SÃO PAULO - Em comum com Nara Leão (1942-1989), a cantora Fernanda Takai tem a delicadeza, a discrição, a voz macia e contida, o bom gosto e a diversidade musicais. Moderna e criativa, com todos esse predicados já revelados como integrante do Pato Fu, ela tinha, enfim, requisitos de sobra para prestar um original tributo à "musa da bossa nova". E foi o que fez em Onde Brilham os Olhos Seus (Do Brasil Música/Tratore), seu ótimo álbum de estréia-solo. O disco foi produzido por John Ulhoa com direção artística de Nelson Motta, que foi amigo de Nara e sugeriu o projeto e, conseqüentemente, parte do repertório.

 

 

Fernanda já tinha cantado algumas dessas canções no desfile de Ronaldo Fraga este ano. A coleção do estilista, aliás, foi inspirada no design da fitacassete que a vocalista do Pato Fu enviou a ele com ...E Que Tudo Mais Vá pro Inferno, que Nara lançou em 1978, interpretando só músicas de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. "Tudo começou com um e-mail do Nelson Motta em dezembro do ano passado. No desfile foi revelado às pessoas, porque a gente vinha fazendo esse disco em segredo", conta Fernanda.

 

No fundo da passarela, rodeada de barquinhos suspensos ela adiantou mais da metade do disco, cantando trechos de Diz Que Fui por Aí (Zé Ketti/Hortênsio Rocha), Insensatez (Tom Jobim/Vinicius de Moraes), Trevo de Quatro Folhas (Dixon/H.Woods/Nilo Sérgio), Luz Negra (Nelson Cavaquinho/Amâncio Cardoso), Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos (Roberto e Erasmo Carlos), Descansa Coração (My Foolish Heart) (V.Young/N.Washington/Nelson Motta) e Ta-hi (Joubert de Carvalho). Os arranjos surpreendentes já eram o que está no CD. "A gente tomou um susto com a repercussão, era para ser só uma apresentação simples, mas todo mundo ficou em cima querendo saber", lembra.

 

Motta passou a ela uma lista de cerca de 40 músicas, tanto as que seriam importantes para o que Nara significou como as que achava que ficariam bem na voz de Fernanda. "Ele meio que se baseou nesses dois parâmetros. Várias das músicas eu já conhecia, mas ele me pediu para ouvir com outro ouvido agora, além de sugerir outras coisas", diz Fernanda. "Ouvi a discografia toda dela, fiz minha lista paralela e ficamos discutindo por e-mail o que valia a pena, o que significava para a carreira dela, ou que grupos de compositores representava." Debaixo dos Caracóis era a que tinha maior relação afetiva. "Era minha canção de ninar, meu pai cantava pra eu dormir. Conhecia com Roberto, mas quando comecei a me interessar por música, comprei um toca-fitas e confisquei várias fitascassetes do meu pai. Uma delas era a da Nara cantando Roberto e Erasmo. Outra era dela cantando Chico Buarque. Ouvi Nara muito pequena por causa do meu pai. E durante minha vida adulta, que passou por fases que eu definitivamente não ouvia música brasileira, só gostava de rock inglês, mesmo assim mantive minha coleção."

 

Fernanda também revela que sempre gostou de bossa nova, e a partir desse trabalho com Nelson Motta e por ouvir toda a discografia é que foi perceber "o tanto de universo diferente que Nara freqüentou", extrapolando seus conhecimentos. Sobre Meu Primeiro Amor (1975), do qual extraiu Trevo de Quatro Folhas e Canta, Maria (Ary Barroso), comenta: "Se pensar bem, ela fez um disco meio Adriana Partimpim, naquela época, em que cantava para os filhos não necessariamente músicas de criança".

 

A maioria das canções foi (re)gravada por vários intérpretes, mas, como lembra Fernanda, muitas delas Nara gravou pela primeira vez. Ao pinçar Seja o Meu Céu, transformado num delicioso e dançante eletro-baião, ela tira do limbo Robertinho do Recife. O título do disco foi extraído da letra de Capinam. O DJ Zé Pedro já está doido pra fazer um remix.

 

Lindonéia (Caetano Veloso/Gilberto Gil), lançada no álbum manifesto Tropicália (1968) ninguém mais registrou além dela. Fernanda tocou no mito, a princípio com receio do que os fãs de Nara e da música brasileira iriam pensar. Suas abordagens são inusitadas, mas nada absurdas. Até a filha de Nara, Isabel Guedes, aprovou. O aval de Nelson Motta já veio adiantado, quando selou em Fernanda o apelido de "Nara Leão do pop-rock". "Quando faço um primeiro disco não autoral, ele tem de vir com uma carga de personalidade muito forte." E veio.

Lauro Lisboa Garcia

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