São tantas as novidades que é difícil saber por onde começar. Antes de mais nada, um aviso: o violoncelista brasileiro radicado na Suíça Antonio Meneses está de volta a São Paulo para dois concertos, hoje e amanhã, com a Filarmônica de Varsóvia. As apresentações marcam o final da temporada da Sociedade de Cultura Artística, mas vão servir também de gancho para o lançamento do novo CD do músico, gravado com o pianista Gerard Wyss, com obras de Mendelssohn. E não pára por aí. Ele estréia em dezembro uma obra do recifense Clovis Pereira e, no começo do ano que vem, um concerto para violoncelo encomendado por ele ao compositor Marcos Padilha. Mais: apesar do fim do Trio Beaux-Arts, ele vai manter sua parceria com o pianista Menahem Pressler e, ainda este ano, gravam um álbum duplo com as sonatas para violoncelo e piano de Beethoven. Chega? Só mais uma: depois de oito anos, Meneses volta a assumir, em Berna, posto de professor e vai se dedicar mais à carreira pedagógica.
Em São Paulo, Meneses vai interpretar o Concerto para Violoncelo de Elgar, ao lado da Filarmônica de Varsóvia regida por Antoni Wit (o programa tem ainda peças como a Sinfonia nº 1, de Brahms, e a Sinfonia nº 6, de Tchaikovski). É uma peça extremamente romântica, ele diz, muito bem escrita, ''''que permite ao violoncelo explorar todos os seus meios, suas possibilidades expressivas, seus coloridos''''. A intenção de explorar a riqueza do violoncelo também está no cerne da série de encomendas que, nos últimos anos, Meneses tem feito a compositores brasileiros. Depois das peças que tinham como objetivo acompanhar as suítes de Bach, encomendadas a nomes como Marlos Nobre, Ronaldo Miranda e Almeida Prado, ele estreou recentemente uma peça para piano e violoncelo de Calimério Soares. ''''Eu me dei conta de que me descuidei desse lado importante da minha carreira, que é a encomenda de novas obras para meu instrumento.''''
Outro aspecto que Meneses havia deixado de lado era a dedicação à música de câmara. Desde a década de 90, no entanto, ele recuperou - e bem - o ''''tempo perdido''''. Ele sempre teve a sorte de, além do talento, estar próximo a pessoas que o orientaram na direção certa. Foi assim com Antonio Janigro, seu primeiro professor na Alemanha, com quem aprendeu a importância da união entre técnica e musicalidade; ou com o maestro Herbert von Karajan, de quem herdou a preocupação com o perfeccionismo. No que diz respeito à música de câmara, o divisor de águas foi o pianista alemão Menahem Pressler, com quem começou a trabalhar em 1997, quando passou a integrar o Trio Beaux-Arts. Com ele, diz Meneses, surgiu ''''o prazer em dividir com alguém a criação de uma interpretação em conjunto''''. Não por acaso, depois de discos com o trio, Meneses têm entrado em estúdio também para celebrar a parceria com outro grande músico, o pianista suíço Gerard Wyss. O primeiro disco, lançado há um ano, trazia obras de Schumann e Schubert. Agora, Mendelssohn. ''''Já havíamos gravado esse disco há cerca de cinco anos, mas não gostamos do resultado. Daí a decisão de voltar a esse repertório agora'''', conta Meneses.
Engana-se, porém, quem imagina que o fim do Trio Beaux-Arts, que sai na próxima semana em sua última turnê européia, pode significar um passo atrás na carreira de camerista. ''''O fim do trio aconteceu naturalmente'''', diz Meneses. ''''Há dois anos, o violinista Daniel Hope já nos avisara da sua intenção de deixar o conjunto e partir em busca de novas oportunidades. Restamos eu e Menahem. Precisaríamos começar tudo de novo, encontrar um outro violinista e iniciar um processo de entendimento musical que duraria dois, três anos. Não tínhamos certeza de que continuaríamos felizes tocando nesse contexto. E então preferimos encerrar nossas atividades. Mas a música de câmara sempre vai ser importante para mim. Eu e Menahem vamos continuar tocando juntos, nossos projetos vão além da gravação do Beethoven. E vai me sobrar mais tempo para me dedicar a outros projetos. Como resgatar meu desejo de lecionar, o que voltei a fazer, em Berna.''''
O Disco
Lançado pelo selo Clássicos, o novo disco de Antonio Meneses o coloca mais uma vez ao lado do pianista suíço Gerard Wyss - no ano passado, eles haviam lançado um elogiado (e premiado) disco dedicado a Schubert e Schumann; e, em julho deste ano, os dois fizeram um dos principais recitais da programação do Festival de Inverno de Campos do Jordão. O repertório do disco inclui as duas sonatas para violoncelo e piano; as Variações Concertantes, o movimento Assai Tranquilo e uma transcrição para violoncelo e piano de três das Canções Sem Palavras, escritas originalmente para piano-solo.
Serviço
Filarmônica de Varsóvia e Antonio Meneses. Teatro Cultura Artística . Rua Nestor Pestana, 196, Centro, 3258-3344. Hoje e amanhã, 21 h. R$ 120 a R$ 240