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As escavações realizadas durante as obras de restauração da Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no centro do Rio, resultaram numa descoberta arqueológica importantíssima: parte de uma paliçada (estrutura para defesa contra invasores) que vem a ser a primeira prova material da existência de uma feitoria no lugar que se tornaria a cidade do Rio de Janeiro, isso poucos anos depois de os portugueses chegarem ao Brasil, em torno de 1504. "É o único vestígio que se tem do século 16 no Rio, e a única paliçada já encontrada na cidade até o momento", explicou o professor Ondemar Dias, do Instituto de Arqueologia Brasileira, que comanda a equipe de escavadores. Encontrada no início do mês, a construção é em taipa de pilão, uma técnica trazida da Europa em que toras de madeira são afixadas numa forma recheada de argamassa de cal. Cinco séculos atrás, a barreira chegava a cinco metros de altura, desconfiam os pesquisadores. Caso seja constatado que a estrutura foi erguida pelos portugueses, com o objetivo de se defender dos inimigos franceses (também pode ter sido o contrário, embora a primeira hipótese seja a mais forte), o achado se torna uma comprovação de que nossos colonizadores já tinham a intenção de se fixar no Rio, e com uma perspectiva de longo prazo. "A paliçada pode não impressionar visualmente, mas nos dá a indicação de algo que pode ser anterior à fundação da cidade (ocorrida em 1565). É, também, a prova material da existência da feitoria, fundada em 1504, o que só se tem pelo relato nos livros", ressaltou o superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Rio, Carlos Fernando Andrade. "É de uma importância ímpar para a cidade e para os pesquisadores porque se pode ver fisicamente o trabalho humano da época", continuou o secretário do Patrimônio Cultural do município, André Zambelli. Perto do ponto onde está a paliçada - 1,5 metro abaixo do nível do piso, o mais profundo já escavado na área da Antiga Sé -, também foram recuperados vestígios da passagem de índios por ali. São restos de uma fogueira e uma machadinha rudimentar feita de pedra. Mais adiante, foram descobertas bases de três colunas toscanas e um trecho de chão em lajota vermelha, que devem ser do século 18. Os achados, que ainda serão analisados a fundo, mostram os diferentes tipos de ocupação da área em que fica a Antiga Sé. BICENTENÁRIO Localizado na Rua Primeiro de Março, próximo à Praça 15, o templo católico começou a ser construído em 1761. No século seguinte, foi cenário da coroação de d. Pedro I e d. Pedro II. Desde 1570 o ponto já era ocupado pela capela de Nossa Senhora do Ó. A Antiga Sé está sendo restaurada desde o ano passado e deverá ser reaberta em março do ano que vem, por ocasião das comemorações do bicentenário da chegada da corte de d. João VI ao Brasil. Ao longo desse trabalho, que pode ser acompanhado de perto pelo público, em visitas guiadas, já foram encontrados esqueletos (na nave e na capela-mor) e vestígios de edificações anteriores à igreja. O projeto, que inclui a recuperação da imponente fachada e de seu majestoso interior, além de obras de infra-estrutura, tem orçamento de R$ 11 milhões. A igreja será reinaugurada também como museu de sítio arqueológico (talvez o primeiro no País): os achados mais relevantes ficarão expostos, para que os visitantes aprendam um pouco sobre a história do Rio - e do Brasil. Roberta Pennafort
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