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Num ensaio sombrio sobre os destinos da humanidade, intitulado O mal-estar na cultura, aparecido em 1929, Freud teceu várias considerações sobre sua percepção do significado da cultura para a humanidade. Entendeu-a como uma prodigiosa sublimação na medida em que ela era produto da impossibilidade da realização dos desejos inconscientes mais profundos de todos nós como também uma eficaz barreira para impedir o afloramento das tendências agressivas dos seres humanos.
Mesmo a civilização que nos cercava, aparentando ser sólida, via-se constantemente à beira de uma desintegração devido a hostilidade primordial que provoca um perpétuo conflito entre os homens. O mundo caótico, primitivo e bárbaro dos instintos, tinha assim que ser domado e canalizado por uma força cultural que submetesse o homem a um convívio social mais pacífico e produtivo. O prêmio Goethe Por maior que fosse a fama do doutor Freud no mundo de então, ele não era bem visto nem na sua Áustria natal nem na Alemanha. Os nacionalistas germanistas acusavam-no de difundir uma "ciência judaica" - a psicanálise - que nada tinha a haver com a cultura autenticamente alemã. Os sacerdotes e pastores viam-no como a materialização de uma heresia secular que retirava da religião qualquer evidencia de divindade, além de claramente abolir com a idéia do pecado, peça central de toda a ética religiosa. Mesmo seus colegas psiquiatras duvidavam da eficácia do "tratamento do divã", das sucessivas sessões de terapia, para alcançar a cura das neuroses e outras psicopatias. Todavia o sucesso dele era enorme. Quando o mundo racionalista-positivista da Europa do século XIX desabou no transcorrer da Grande Guerra, de 1914-18, o prestígio dele começou a ascender de um modo inevitável. A confiança que a elite européia tinha na eficácia dos seus valores e dos seus preceitos éticos havia sido fortemente abalada pelo morticínio da guerra das trincheiras e pelo assombroso número de vítimas que causou. Os velhos impérios abalados foram soterrados por transformações bruscas ou violentas revoluções (as principias dinastias reinantes na Alemanha, Áustria, Hungria e Rússia, haviam sido derrubadas). Repetindo-se Marshall Bergman "tudo que era sólido desmanchou-se no ar". Até a corrente dos artistas surrealistas acusou a forte influência do pensamento dele. Um tanto como para compensá-lo pela desatenção e até hostilidade do mundo científico austro-alemão, um influente grupo de escritores e intelectuais lançou-se numa aberta campanha para que ele recebesse o Premio Nobel de 1928, mesmo que fosse o de Literatura. Entre eles estavam Alfred Döblin*, Jacob Wassermann, Bertrand Russell, A.S. Neill, Lytton Strachey, Julian Huxley, Knut Hamsun e Thomas Mann. Os acadêmicos suecos, entretanto, preferiram entregar o prêmio a uma obscura escritora norueguesa, Sigrid Undset (1882-1949), especialista em sagas medievais escandinavas. Sem desanimar, foram à forra, indicando Freud para obter o maior galardão das letras e das ciências germânicas: o Prêmio Goethe, recém estipulado pela prefeitura da cidade de Frankfurt, berço do grande poeta. Finalmente, em agosto de 1930, deu-se a cerimônia da premiação. Por motivo de saúde, afinal ele já estava com 74 anos de idade, se fez representar por sua filha Anna Freud que teve como missão ler o discurso de agradecimento. Evidentemente que o velho sábio sentiu-se particularmente honrado com aquilo, pois foi o quarto grande nome da cultura alemã a receber aqueles louros. E, como a historia posterior iria demonstrar, o mais universalmente reconhecido entre todos. *O romancista Alfred Döblin, famoso autor de "Berlin Alexanderplast", o principal mentor de Freud nesta questão do premio, num artigo da época, assinalou que tanto Goethe como Freud tinham em comum a intenção de conseguir harmonizar o "caótico Dionísio" com a grandeza apolínea, tendo ambos maneiras muito similares de entender a existência humana. Concluiu prevendo que o impacto de Freud na sua época seria idêntico ao de Goethe nos seus anos de Weimar.
Freud, um outro Fausto? Havia um laço profundamente afetivo naquela cerimônia ligando Freud a Goethe. Como confessou certa vez, a decisão dele em vir a ser um cientista, um estudioso da natureza, surgiu-lhe ainda muito jovem ao conhecer o ensaio do poeta intitulado A Natureza, publicado em 1780, na qual Goethe pregava a necessidade da total imersão do pesquisador no objeto a ser estudado e não o distanciamento objetivo: "Natureza! Nós estamos cercados e abraçados por ela, impotentes em nos separarmos dela, e por igual impotentes em penetrar mais profundamente além dela" - trecho de Aforismos sobre a natureza). Recomendava seguir a intuição, associando-a a observação, pois somente desse modo o homem poderia ambicionar penetrar nos mistérios da Natureza. Portanto, Goethe foi o primordial mentor intelectual de Freud, e durante toda a sua vida pautou suas reflexões ou conclusões referindo-se a uma ou outra passagem de uma das tantas obras do poeta. A tal ponto que muitos admiradores da prosa de Freud consideram-no como o mais lídimo sucessor de Goethe dentro da cultura alemã (herança que Thomas Mann pretendia para si), seguidor fiel do compromisso do poeta com a A verdade, a ciência e a razão, sem esquecer-se de mencionar o apreço que ambos tinham pela Itália. Aliás, quando Freud esteve de passagem por Veneza, conforme escreveu a seu confidente, o doutor Fliess, em carta de 3 de outubro de 1897, lembrou-se de que Goethe, quando também andara por lá em 1786, encontrara ao acaso uma cabeça de carneiro o que veio a inspira-lo num estudo de anatomia, Freud queixou-se ao amigo que não encontrara "nenhuma cabeça de carneiro" que provocasse nele efeito similar, um salto que lhe permitisse a descoberta de algo científico que o celebrizasse. Sentiu-se isso sim um "cabeça-de-carneiro", um "cabeça-dura", que nada tirara proveito da incursão. Todavia, nada custa especular que de fato a maior influencia sobre o psicanalista não teria sido propriamente Goethe, mas sim o mais famoso personagem criado pelo poeta, o Doutor Fausto. Quem melhor poderia servir-lhe como modelo senão que aquele estranho alquimista e homem de ciência? Alguém que, insatisfeito com os estudos até então realizados ao longo de uma vida trancada em laboratório, cede à tentação de, pelas mãos de Mefistófeles, seguir atrás das pegadas de outro mundo: regido pelas forças irracionais e sensoriais, arredio aos costumes, um continente embaçado, oculto aos olhos das vistas e mesmo da consciência humana, dominado pelas forças primais dos instintos e das assombrações.
O fracasso do Princípio do prazer Um pouco antes de publicar O mal-estar na cultura, Freud seguindo a tradição iluminista e científica do seu tempo, havia investido contra religião num famoso ensaio intitulado O futuro de uma ilusão, aparecido em 1927, onde reiterou sua crítica à atitude infantil da humanidade, pondo-se voluntariamente submissa a um Pai Bondoso que lá do Céu vigiaria o bem-estar e a bem-aventurança dos seus filhos na Terra.
Irritava-o o fato de verificar que a grande maioria não conseguia superar aquela situação de total dependência a um patriarca "grandiosamente exaltado", que nem sequer tinha um plano de fazer o homem feliz. Foi exatamente sobre isso, sobre a questão da felicidade, que ele veio a concentrar sua atenção no ensaio seguinte, o já citado O mal-estar da cultura.
Freud procura afastar qualquer expectativa de que o Princípio do prazer, mola impulsionadora do comportamento humano, possa vir a trazer a felicidade. Ao contrário, a idéia que podemos ser felizes tinha pela frente contra si a própria realidade circundante que, ao contrário do que podia se ambicionar, somente nos conduzia ao sofrimento.
A começar pelo corpo, condenado desde sempre a uma inapelável decadência e à aniquilação, na maioria dos casos ele somente provoca dor e angústia.
O mundo exterior também foi alvo. Como imaginar almejar alegrias em meio a tantas desgraças naturais, ao deslocamento de forças onipotentes e implacáveis que esmagam cidades, afundam navios, sufocam os homens?
Mas o pior disso tudo, desse elenco de impedimentos para se vir a atingir a felicidade, são os outros. Como aqueles que são próximos fazem sofrer! Quantos infringem humilhações, quantos deles frustram esperanças mais triviais, quantos traem ou enganam?
Exatamente em vista dessa impossibilidade de encontrar a satisfação determinada pelo Princípio do prazer, é que faz a humanidade procurar derivativos, uma desatinada busca de independência do Mundo Exterior. Fosse como fosse, o projeto existencial de cada um nós - a busca da felicidade - conduzia a um inapelável fracasso.
Estratégias de fuga da realidade Se o "princípio da realidade" é brutal, bloqueando o Princípio do prazer, isso não evita que se procurem alternativas que levam a contornar o problema, a uma espécie de fuga da realidade. Alguns tentam a arte como uma "técnica de vida". Mas ela não passa de uma "ligeira narcose", um "refugio fugaz" frente aos dissabores da vida e evidentemente não faz esquecer a miséria real.
Outros optam por uma existência de eremita, criando um mundo somente seu, mas cujo recolhimento e afastamento de tudo geralmente provocam uma espécie de demência ou acentuada paranóia que faz com que substituam a quimera pela realidade. É certo que muitos ainda preferem uma solução coletiva que os proteja da dor e do sofrimento aderindo à idéia de uma "transformação delirante da realidade" (que pode dar-se pela adesão a uma religião como a uma ideologia), que não diferente do demais está por igual condenada ao fracasso.
Por último resta o amor como a grande válvula de escape à arredia realidade, uma fantasia sensual que provocaria um êxtase de grande prazer. Todavia, como alguém pode esperar encontrar a felicidade justamente com o menos confiável dos deuses que é Eros, responsável pelos transtornos de juízo dos deuses e dos homens?
Pois não advém justamente do amor o maior número de tristezas e desatinos que se abatem sobre todos? Por conseguinte, tentar alcançar a felicidade é algo inatingível, é um propósito irrealizável.
O que é possível ser modestamente atingido é uma "felicidade minguada", que termina dependendo da "economia libidinosa" de cada um. Freud concluiu suas observações afirmando que mesmo sabendo-se disso tudo, da inviabilidade dos objetivos do Princípio do prazer, não se deve e nem pode abandonar os esforços em vir a concretizá-los.
De algum modo todos devem se empenhar para que ocorra a sua realização. Na sentença final, que encerra o ensaio, concluiu que: "Nossos contemporâneos chegaram a tal ponto no domínio das forças elementares que, com sua ajuda, seria fácil exterminarem-se mutuamente até o último homem. Tanto sabem que aí reside boa parte da sua agitação e infelicidade e angústia. Só nos resta esperar que outra das potências celestes, o eterno Eros, mobilize suas forças para vencer a luta contra seu não menos imortal adversário (o demônio da autodestruição). Mas quem pode prever o desenlace final?"
Bibliografia
redação
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