Definitivo = para todo o sempre. Essa palavra é engraçada, porque às vezes me dá medo. E em outras, medo algum. Nunca tive receio de casar, por exemplo. Mas já surtei por antecipação só de pensar em comprar apartamento, porque o simples fato de me imaginar morando no mesmo lugar “para todo sempre” me causa arrepios de desespero – mesmo sabendo que ninguém é obrigada a isso só por ter virado proprietária legal do espaço... Também não pensei duas vezes antes de fazer cada uma das minhas tatuagens. E elas são para o resto da vida, certo? Mas outro dia me flagrei numa cena ridícula: com medo de grudar um adesivo (que nem é definitivo, apesar de parecer) na parede do quarto. Foi nessa hora que pensei na resistência natural ao que dura muito. E no quanto isso tem a ver como o universo doméstico.
Conheço gente que não compra móveis de qualidade extrema, “móvel para toda a vida”, justamente por não querer que eles durem todo esse tempo. Afinal, parte da graça de compor uma casa é justamente trocar peças ao longo do tempo. O sofá que é sonho de consumo hoje pode não ser o mesmo amanhã. Isso vale para tapetes, cortinas, lustres, luminárias e outros acessórios do lar. Em compensação, dá uma raiva tremenda comprar eletrodomésticos que poderiam muito bem durar uma vida e vê-los entrar em decomposição após alguns anos. Euzinha mesma sou proprietária de um fogão com poucos anos de uso que já está enferrujando nos botões, como se fosse possível ter um fogão e mantê-lo afastado de respingos, panos úmidos e produtos de limpeza – os causadores do estrago precoce. E olha que custou caro, não estava em nenhum saldão de Natal e muito menos é de marca desconhecida. Tem pai e mãe reconhecidíssimos. Dá uma raiva...
Minha mãe tem um fogão que já dura mais do que a minha própria existência. Quando eu nasci, ele já estava lá. Deve ficar por muitos anos mais. E nem por isso ela manteve a casa estagnada. Pelo contrário, antes de os adesivos de parede existirem ou virarem modinha, ela criava seus próprios, munida de papel contact e criatividade – que nunca lhe faltou. Não precisava mudar de fogão e de geladeira a cada temporada, mas inventava novos jeitos de ver as peças de sempre – que, no embalo decorativo, também ganharam flores recortadas, para combinar com as decalcadas aos azulejos e às portas de fórmica dos armários. Só para variar um pouco e fazer diferente. Se ela teve medo de “estragar” as peças? Nenhum. Nem pensou nisso em pleno surto de metamorfose doméstica. Pois é justamente assim que sigo acreditando que as coisas devem ser: feitas no embalo do momento, sem previsões estressantes para o dia seguinte – que, como dizem sábios e religiosos por aí, nunca nos pertence de fato. Então, amiga, se jogue! E nunca tenha medo, mesmo que a primeira vista dê um friozinho na barriga ou medo de arriscar.