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Moda brasileira vive "Ensaio sobre a Cegueira", diz Jum Nakao

Jum Nakao, 40 anos, é um dos grandes nomes da moda brasileira. Despontou no cenário fashion nos anos 90, no extinto Phytoervas Fashion. Em seguida, virou diretor de estilo da Zoomp, grife tradicional no país, onde ficou por seis anos. Em 2004, fez um desfile marcante de despedida do SP Fashion Week, no qual as modelos vestiam roupas feitas de papel. Ao final do desfile, elas rasgaram as peças feitas de papel vegetal, confeccionadas em mais de 700 horas de trabalho. Neste momento, fez história. O desfile intitulado "A Costura do Invisível" virou livro, DVD e case obrigatório para quem estuda moda.

Naquele momento, ele já sustentava a sua tese: a moda no Brasil é uma grande ficção. "A moda brasileira não tem materialidade, não é conhecida pelo povo, pelo consumidor. Além disso, ela é fraca, vazia, copiada", sintetiza o estilista. Para Jum, a difusão da moda que existe hoje, nos desfiles e na mídia, não condiz com o que está nas ruas, nas revistas, na boca do povo. São partes que não se conversam.

Jum faz corte e costura com estilo. Mas vai além. É quase um filósofo da moda. Pensa-a tal como um comportamento, e não somente como uma forma de cobrir o corpo. Flerta com outras artes, as plásticas, as visuais, com a TV. Colaborou na criação da série "Hoje é Dia de Maria", já fez exposições em museus, fez direção de arte de filme e de ópera. Não se limita à costura propriamente dita. Como pensador da moda, é constantemente convidado por empresas, universidades e associações para dar palestra, consultoria, workshops. No próximo ano, desembarca na Nova Zelândia e no Japão, a convite dos governos locais, para palestras.

Jum começou na área aos 17 anos. O primeiro trabalho foi numa confecção infantil na Mooca e sua primeira formação foi no CIT (Coordenação Industrial Têxtil). Um pouco mais tarde, ele fez licenciatura em artes plásticas na FAAP e história da moda na USP. Hoje, como professor de pós-graduação da FAAP, faz questão de abrir os olhos de seus alunos, ávidos aspirantes ao universo das agulhas e passarelas, a abrir os olhos para o que está acontecendo no país. "Existe uma miopia geral. Da parte de todos envolvidos na produção da moda - dos empresários aos estilistas. Eu diria que estamos escrevendo um 'Ensaio sobre a Cegueira' no mundo da moda, porque as pessoas acham que algo grande está acontecendo e não está", diz.

Para Jum, é fácil entender porque a moda nacional ainda não existe. Mesmo após a explosão dos desfiles na última década e dos cursos de graduação, que mais que triplicaram neste mesmo período, as roupas aqui produzidas ainda não seduzem a população como um todo. Não são objetos de desejo. "Até os americanos conseguem ser criativos. Eles sabem como construir uma marca", diz. "Pergunte a qualquer 'mano' americano se ele não sabe o que é a Ralph Lauren, a Calvin Klein. Ele pode não ter acesso, não ter dinheiro, mas sabe o que é e tem naquela marca um objeto de desejo. Isso não acontece aqui".

Outro fator que para o estilista-filósofo também pesa contra a moda brasileira é o fato de ela não gerar movimentação financeira e industrial. E, indo mais além, não é exportável. Tirando uma Havaiana aqui, um biquíni ali e um grande estilista acolá, não se "exporta moda brasileira". "Eu diria que não produzimos moda no Brasil, produzimos roupa", lamenta.

Para ele, as origens do problema são as mesmas de outras tantas questões mal resolvidas no país, entre elas, a falta de cultura e educação. "O brasileiro é o povo mais passivo que eu conheço - passivo, não pacífico - e a moda reflete esta passividade, esta apatia geral", acrescenta.

Mas Jum Nakao não é um pessimista. "Sou muito realista. E acredito que a gente vai conseguir sair desta apatia um dia", diz. Ele mesmo, como profissional, está sempre disposto a encarar um desafio. No meio do ano, aceitou o convite de uma grife do Bom Retiro, bairro de São Paulo onde há mais de mil confecções e lojas, meca dos lojistas do Brasil todo, para fazer a diferença em um nicho onde todos se copiam. Como diretor de estilo da Nutrisport, a grife sexagenária da região, ele pretende inovar sem desrespeitar o gosto da clientela. "Minha função vai ser dialogar com o público deles, buscar entender o que se quer e inovar em cima dessas vocações que eles já têm. Tem que haver um respeito pela tradição da marca, são mais de 50 anos de empresa."

E assim segue o estilista: inventando moda onde se faz roupa. (ANSA)
Da Ansa

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