Marcel R. Goto
Projetos como o de um robô que fareja álcool e segue ou foge da sua fonte, uma harpa que usa lasers ao invés de cordas e um cadeado com reconhecimento de voz estão longe de fazerem parte do cotidiano da feira de ciências escolar comum. Mas, graças a um convênio feito com o Grupo de Sensores Integráveis e Microssistemas da Escola Politécnica, na USP, alunos do Colégio Pueri Domus estão tendo a rara oportunidade de desenvolver trabalhos como esses, avançados até para estudantes de Engenharia. E ainda de experimentar um pouco do ambiente universitário antes mesmo de prestarem o vestibular.
Thiago Henrique Daud, aluno e pesquisador do Grupo SIM, conta como começou a parceria: “Fui procurado por um grupo de alunas em 2005. Mas depois de várias discussões, elas acabaram se interessando por outro projeto que desenvolvíamos aqui no laboratório”. O novo projeto, uma interface de computador controlada por impulsos nervosos, é uma abordagem de vanguarda que promete melhorar a qualidade de vida de pessoas com paralisia cerebral, e rendeu às alunas o primeiro lugar na feira.
Um segundo grupo de alunos procurou o Grupo SIM para orientação, em 2006, e após este novo contato, seu coordenador, Prof. Dr. Francisco Javier Ramirez, propôs um convênio à escola. Começando este ano, a possibilidade de orientação por pesquisadores do Grupo SIM foi estendida oficialmente a todos os alunos participantes da feira de ciências que escolhessem trabalhar com temas dentro das áreas de interesse do laboratório. Passaram a frequentar as instalações da Poli, e assistir a apresentações que frequentemente estavam muito adiante do conteúdo da escola.
Além do aumento na sofisticação dos projetos dos alunos, a parceria mostrou resultados inesperados. Muitas vezes as qualidades valorizadas pela escola, como notas e boa disciplina, não se traduzem em desenvoltura, como pesquisador na universidade.
E o contrário, um aluno diagnosticado com dislexia e de desempenho limitado no colégio se destacou tanto dentro dos laboratórios que foi imediatamente convidado para um estágio no Grupo SIM, para surpresa dos pais, professores, e do próprio aluno, Luiz Mauricio Jardim Filho.
ROBÔ FAREJADOR
“Desde cedo o Maurício mostrava interesse e capacidade para lidar com eletrônica, ele vivia desmontando ou consertando aparelhos”, revela seu pai. O projeto do grupo de Maurício, o robô farejador citado no início da matéria, foi o primeiro a ficar pronto, , e então ele mesmo passou a supervisionar e ajudar seus colegas.
Mas o convênio e suas possibilidades de expansão ainda encontram obstáculos na estrutura burocrática da universidade. Apesar do sucesso já alcançado, o professor Ramirez considera a parceria com o Pueri Domus como uma experiência inicial, e seu desejo expresso é levar a metodologia para as escolas públicas, para melhorar o ensino de ciências nas camadas menos favorecidas da população.