Com 35 anos e 40 trabalhos na TV e no cinema, ele se tornou um modelo de ator multifacetado que não precisa de revistas de fofoca para se manter na mídia. Mas o vício por trabalho já lhe rendeu uma bela insônia.
Ele tem 35 anos e já fez 40 trabalhos na televisão e no cinema. Ou seja, sem contar as peças em que atuou e produziu, já fez mais de uma grande produção por ano de vida. Não é à toa, portanto, que Selton Mello tem fama de ser viciado em trabalho, título que aceita sem problema. E admite que o vício já lhe rendeu uma tremenda insônia. No começo deste ano, Selton voltou aos cinemas como o traficante João Estrella, no filme Meu Nome Não É Johnny. Em breve, será visto em mais dois longas, Os Desafinados e Federal, e está acabando de montar seu primeiro longa-metragem como diretor, Feliz Natal, no qual também atua, edita, finaliza e produz. Selton falou ao JT em um dos raros intervalos de sua agenda lotada.
O universo das drogas de ‘Meu Nome Não É Johnny’ foi uma coisa nova ou você conheceu muita gente que se envolveu com o tráfico?
Eu conhecia um cara que começou a vender. E conheço vários que usam e usaram e de uma forma radical. Teve até casos de ter que dar um toque de irmão. E é sempre algo doloroso de se fazer. Já me ofereci para levar essas pessoas para uma clínica, mas aí a pessoa se ligou que estava em um caminho perigoso.
E qual é o seu limite com as drogas?
O meu limite sempre foi muito atrelado à quantidade de coisas que faço. Eu trabalho muito. Estou produzindo, editando e dirigindo meu próprio longa, ou seja, do papel até a montagem, estou fazendo tudo. Não tem espaço para a droga. Ou você se droga ou você trabalha. Eu já experimentei, mas não é a minha praia não. Meu único vício é o cigarro, que sei que um dia terei que parar. É prazeroso fumar, mas é péssimo para a saúde. Tenho consciência, mas continuo fumando.
Há quanto tempo você fuma?
Uns 12 anos. Mas acho que não parei ainda para não sentir os efeitos, e as pessoas só costumam parar quando tomam um susto. Quando fumava, o (ator) Pedro Paulo Rangel estava em uma peça e, um dia, quando subiu dois degraus não agüentou. Teve que parar a peça. Deu falta de ar, foi para o hospital. Hoje ele prega contra o tabagismo para todos da classe artística.
Você mencionou que trabalha muito em vários projetos. Gosta de ser um ator multifacetado?
Eu vou fazendo as coisas que me encantam, me emocionam e me divertem. Se não acontecer essas três coisas, não vou conseguir tirar leite de pedra. Se alguém chega com uma comédia, e não acho engraçado, não vou conseguir transformar aquilo em engraçado.
Talvez por isso você procure fazer coisas diferentes em cada papel.
Talvez sim. Tenho sido muito feliz nas minhas escolhas. E, quando digo isso, não é sobre bilheteria ou sucesso de público a que me refiro, mas ao prazer de ter feito aquele projeto. Tive um prazer enorme em fazer Árido Movie com o (diretor) Lírio Ferreira. Foi um filme pouco visto, mas inesquecível para mim.
Algum projeto novo em vista?
Finalizo a montagem do meu filme no começo deste ano e devemos lançar no próximo semestre. Tem dois filmes prontos, Os Desafinados, do Walter Lima Junior, e Federal, um filme policial que fiz em Brasília. E neste ano tenho convite para três filmes, Mulher Invisível, do Cláudio Torres, A Erva do Rato, do Julio Bressane, além da história do Jean Charles (de Menezes, brasileiro morto por equívoco pela polícia londrina em 2005).
Então está confirmada a sua escalação em Hollywood para ser o Jean Charles de Menezes no cinema.
É um projeto que existe, era para eu estar filmando agora, mas foi adiado por questões financeiras. Vai sair mesmo em maio deste ano. Se nada mudar, eu farei ele mesmo, com o Stephen Frears como produtor e o Henrique Goldman, um brasileiro que mora em Londres há muitos anos, como diretor. Acho uma história importante para ser contada.
Será a sua primeira experiência importante no exterior?
Será sim, estou bastante empolgado para rodar o filme.
Você fez ‘Os Aspones’ e ‘O Sistema’ na Globo. Porque esse tipo de humor não deu certo?
O Sistema foi uma parceria com a Fernanda Young e o Alexandre Machado, que surgiu como conseqüência de Os Aspones, que foi um passo muito arriscado do casal, com humor nonsense, silêncios etc. Já tinha um risco muito grande ali. Não me surpreendeu não ter uma segunda temporada. O Sistema foi mais radical ainda. Eu mesmo li e disse ‘peraí, onde é que estamos, para onde vamos?’. Eu também me perdia, era complexo, arriscado. Acho louvável ter experimentado, mas acho que o público na TV quer algo mais palatável, como A Grande Família, A Diarista. Os Normais foi talvez o único programa que eles conseguiram fazer que agregava um humor inteligente e atingia as pessoas mais simples. Acho que faz parte do nosso temperamento arriscar, tentar fazer outras coisas. Não sou do tipo que fica lamentando porque não rolou mais temporadas. Agora acabou O Sistema e pronto, vamos ver o que acontece pela frente. O mesmo com Os Aspones.
Vai voltar às novelas?
Tenho vontade de fazer sim. Mas faço tanto cinema e gosto tanto de fazer cinema que, para fazer novela, vou ter que abdicar de muitas coisas, porque é um ano que você fica envolvido. E, hoje em dia, com o caos aéreo, foi-se o tempo em que se podia estar em uma novela e em cartaz no teatro em São Paulo nos finais de semana. Para fazer novela, você tem que abrir mão de cinema, teatro, e, para isso acontecer, preciso receber um personagem incrível na novela e não ter tantos projetos fora da TV naquele momento.
Sendo viciado em trabalho, parece que você ainda não conseguiu curar sua insônia.
Melhorei bastante, pelo menos parei de tomar remédio para dormir. Isso já é um grande avanço porque o negócio de usar remédios vicia. Eu tomava para dormir, mas chegou uma hora que não dormia nem tomando remédio. Hoje em dia assumo a insônia. Quando ela vem, aceito. Faço dela uma coisa útil, vou ler, ver filme etc.
Você ainda gosta de reunir os amigos para fazer festas em casa?
Gosto muito de receber o pessoal lá em casa. É bom porque depois já estou perto do meu quarto e durmo (risos). Prefiro trazer as pessoas para casa do que ir a um bar e não ter tanta liberdade para conversar.
Você declarou recentemente que tem achado a sociedade muito pasteurizada. O que quis dizer?
Todo mundo diz a mesma coisa. Quando a gente vê uma coletiva de seleção de futebol, ninguém diz nada novo. Nesse ponto sinto saudade do Romário. É tão prazeroso ver alguém reclamando que foi tirado (do campo) quando estava jogando bem, enfim, sendo sincero, espontâneo e, no final das contas, original. Hoje é tudo homogeneizado.
Uma vez você disse que ‘viver da fama é coisa para quem não tem trabalho para mostrar’. Qual é a fórmula para um ator não depender da fama para sobreviver?
Dá para ficar alheio a isso, acredite. Eu não tenho paparazzi na minha cola, ninguém me persegue para tirar uma foto na rua. Isso é um problema de quem faz novela. Como faço cinema, isso naturalmente me dá uma isolada.
Como você consegue ficar longe das fofocas? Basta fugir das badalações sociais?
Eu falo para as pessoas o que interessa. Acho uma pena muita gente se limitar a falar sobre quem está namorando, que carro comprou. Isso não é nada. Tem que falar do trabalho, o que ele tem para dizer de você. Às vezes, o sujeito fala sobre o namoro e o carro porque o trabalho não é o suficiente para ele se sustentar em frente às câmeras.
Você ainda está naquela eterna luta contra a balança?
Sempre, mas consigo me encaixar em qualquer tipo físico que quiser. É porque tenho disciplina para o trabalho e não para a vida. Talvez por ter tanta disciplina para o trabalho, relaxo para a vida. Acabou o trabalho e é um festival de pizza, chocolate etc. Quando tenho que cortar isso, é um saco. Tem que controlar a tentação.