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Quadrinhos iranianos viram filme animado

Quando se apaixonou pela arte dos quadrinhos, influenciada pelo professor e também quadrinista Pierre-François Beauchard, Marjane Satrapi nunca imaginaria que seria a única diretora a ter um filme concorrendo à Palma de Ouro em Cannes em 2007. E que seu filme seria escolhido como o melhor longa de ficção estrangeiro pelo público da 31ª Mostra de Cinema de São Paulo.Muito menos que seria a representante da França a uma vaga no Oscar 2008. Ou que concorreria ao Globo de Ouro 2008.

Persépolis, mais que filme, é uma das mais criativas e bem-sucedidas, histórias em quadrinhos da História (com H maiúsculo, mesmo). Série de HQs criada por Marjane em 2000, reconta, no melhor estilo ''''realismo estilizado'''' a época de sua infância e sua juventude. Mais que isso, trata-se da história recente de seu país, o Irã. Persépolis (uma alusão à cidade persa de mesmo nome, um importantíssimo sítio arqueológico) fez tanto sucesso que ganhou três seqüências. ''''Nestas graphic novels, eu não só conto 16 anos da minha vida, mas passagens que por muito tempo eu quis esquecer, que foram muito dolorosas. Por serem tão verdadeiras e ao mesmo tempo terem humor, acabaram tendo apelo universal. Isso me surpreendeu e me deixou também muito orgulhosa'''', contou Marjane ao Estado, quando mostrou seu filme em Cannes.

Uma compilação dessa história chegou há pouco às livrarias do Brasil. Persépolis Completo (Cia. das Letras, 352 páginas, R$ 39,00) traz em um único volume os quatro livros que Marjane lançou na França.

É de se entender por que a visão de mundo tão particular da quadrinista tenha conquistado leitores em todos os continentes. Marjane, uma garota iraniana, desde seu nascimento em Teerã, no fim dos anos 60, viu seu pequeno mundo islâmico mudar completamente. Viu seu país sair das mãos dos conservadores xás para as mãos de um ditador, o aiatolá Khomeini. Viu ainda o declarado e ousado comunismo em família se tornar fonte de caçadas aos tios e ao pai. A garota cresceu em um país onde a maior contravenção era acelerar o carro em alta velocidade e expor os cabelos ao vento. Ouvir música americana, calçar All Star e promover festinhas particulares regadas a vinho (clandestino, claro, produzido em casa por seu pai) eram atos que podiam dar cadeia.

Para protegê-la de sua própria rebeldia, e por pensar demais, e em voz alta, seus pais a enviaram para o exterior. Em 1983, aos 14 anos, ela trocou Teerã pela fria Viena, onde completou os estudos elementares. Tempos depois, trocou a Áustria pela França e seguiu para Paris, onde foi estudar artes gráficas.

Finalmente seus pais progressistas, angustiados com a filha cerceada por um regime autoritário e machista, viram-se mais tranqüilos, mas não menos tristes, de não terem mais sua única filha por perto. ''''Na verdade, eles temiam por minha segurança. Eles e minha avó me criaram de uma forma esplêndida. Eu sempre tive liberdade para conhecer os lados da história e decidir por qual eu me identificava. Durante os anos de repressão, fazer uma mísera festa que fosse já era considerado um atentado à ordem e aos bons costumes. Beber ,então... Nem pensar'''', conta Marjane. ''''Mas meus pais montaram uma verdadeira fábrica caseira de vinhos. Uma amiga pisava as uvas na banheira de casa, meu pai preparava a bebida, um outro amigo guardava as garrafas. Um dia, voltando de uma festa, a polícia nos parou e disse que meu pai havia bebido. Havia mesmo. Eles quiseram ir até em casa verificar se não tínhamos bebida estocada. Não só tínhamos como tínhamos muita. Eu e minha avó subimos antes para casa e jogamos todo o vinho na privada. Que tristeza! (risos)'''', completa ela, com o bom humor e a ironia fina que sempre esbanja.

Mas foi exatamente essa atitude radical que deu à garota sua maior arma, o nanquim. Em Paris, em vez de se render ao regime ou de se tornar uma guerrilheira, Marjane fez do desenho a sua plataforma de combate a um regime que não aprovava. E começou a literalmente desenhar sua vida em quadrinhos. Em traços marcantes e sem frescura, retratou sua formação dividida entre o secular oriente e o eclético ocidente. ''''Para dizer a verdade, tudo aconteceu por acaso. Nunca fui maluca por gibis e afins. No Irã, nunca foi fácil ter acesso a quadrinhos. Claro que tive uma formação eclética e conheci de tudo um pouco, mas eu só me convenci de que queria fazer isso da vida quando já morava em Paris, nos anos 90. Optei por quadrinhos porque eu sempre amei desenhar. Foi no desenho que encontrei minha vocação. Aliás, essa também não é função muito atribuída a garotas em país nenhum.''''

Marjane não planejou, mas esta foi a melhor ''''estratégia de ataque'''' que ela poderia ter traçado. A quadrinista não só ganhou o exigente leitor de HQs, como colecionou prêmios pelo mundo. E mais. Ganhou a antipatia dos governantes do Irã atual, que têm feito campanhas e boicotes pelo mundo contra seu filme e suas HQs. Mas também ganhou a parceria de Vincent Paronnaud, que dirigiu com ela o único longa-metragem em animação concorrente à Palma de Ouro em Cannes, em maio. Não levou a Palma, mas foi aplaudida em cena aberta e levou um Prêmio Especial do júri. Hoje, ela vive em Paris. E aguarda ansiosa a nomeação dos cinco finalistas aos Oscar de melhor filme estrangeiro. Marjane não fez um filme francês. Muito menos iraniano. Fez cinema. De primeira. Feminino, mas não feminista. Colorido em suas idéias. Preto-e-branco em seus traços e sombras. Imperdível para todos os fãs de quadrinhos, animação, cinema e para quem ainda acredita que (bem ao gosto daquele cultuado filme alemão, Edukators) todo coração é uma célula revolucionária.
Flávia Guerra

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