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A captura de desempenho foi desenvolvida pelo próprio Zemeckis para o filme "O Expresso Polar" (2004). A técnica consiste em "cravejar" o rosto e o corpo de atores de carne e osso com centenas de sensores eletrônicos que captam seus movimentos e expressões e transmitem as informações a um software; os dados, por sua vez, servem de base para que os técnicos criem versões animadas dos atores. Mas quem assistir a "Beowulf" terá uma surpresa. O salto desde a última experiência com a captura de desempenho foi enorme. Em alguns casos, a técnica permite elaborar versões animadas incrivelmente parecidas com os atores originais - como no caso de Angelina Jolie ou de Anthony Hopkins. Mas também possibilita usar a interpretação dos atores para criar figuras radicalmente distintas no aspecto físico. Esse foi o caso do protagonista Ray Winstone (o braço-direito de Jack Nicholson em "Os Infiltrados"), tiozinho inglês de barriga avantajada e 1m80 de altura que foi transformado em um anabolizado viking de 2m. Ou ainda de Crispin Glover (o pai de Marty McFly em "De Volta para o Futuro"), que virou um enorme monstro em carne viva. Os bastidores de filmagem também diferem bastante de uma produção normal. Os atores representam em estúdio diante de uma tela verde, sem cenários, objetos ou figurinos - apenas com roupas colantes e sensores colados em todo o corpo. Para Zemeckis, isso representa uma "libertação da tirania" das filmagens rotineiras. "Não tem a ver com iluminação, com movimento de câmera, com cabelo, maquiagem. É o desempenho em estado absoluto. Não temos que quebrar a cena para ter cobertura, podemos fazer planos abertos e closes ao mesmo tempo. Assim, os atores ditam o ritmo das cenas. Era como no teatro, a não ser pelo fato de estar sendo captado em 3D." A utilização das três dimensões também impressiona pela perfeição técnica, que não lembra em nada antigas experiências que deixavam o público zonzo. Com "A Lenda de Beowulf", o espectador se sente o tempo todo dentro da cena. Mas a experiência obviamente está limitada às salas 3D - como o Cinemark Eldorado, em São Paulo. A possível revolução trazida por "A Lenda de Beowulf" vem causando polêmica. Há especialistas que argumentam que a captura de performance não é exatamente uma novidade. Para alguns, a rotoscopia, técnica de desenho a partir de fotogramas criada há 70 anos, já seria um parente distante da captura. A partir dos anos 80, as indústrias do cinema e dos games passaram a utilizar outra tecnologia chamada "motion capture", que, por sua vez, seria uma espécie de versão Beta da "performance capture". Seu representante mais conhecido é o Gollum de "O Senhor dos Anéis". Mas é inegável que "A Lenda de Beowulf" leva esse modelo muito além. O filme levanta ainda outras questões fundamentais: será que ele pode ser considerado uma animação, um filme com intérpretes ou uma derivação do videogame? Será que ele pode significar o fim da utilização de atores de carne e osso? São perguntas que só poderão ser respondidas no futuro. Mas o fato é que Hollywood está apostando suas fichas na tecnologia. A Disney assinou contrato com Zemeckis para a realização de outros filmes com captura de performance. E cineasta James Cameron lançará seu próximo filme, "Avatar", apenas em salas 3D, em 2009. Para o criador de "Titanic", filme de maior bilheteria da história, serão essas novas tecnologias que garantirão a sobrevivência do cinema.
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