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Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo
O problema desse tipo de projeto demonstrativo é que parte de uma premissa e todo o resto se constrói para justificá-la. Qual a premissa? Meio óbvia, porque em aparência expressão de verdade cristalina: tudo, na sociedade brasileira atual, é medido em termos monetários. É como se a desconsideração absoluta pelo fator ético e o arquivamento das ilusões tivessem jogado o brasileiro nesse corpo-a-corpo imediato com a bruta realidade. A vida nacional tornou-se briga de foice, na qual chora menos quem pode mais.
Mas, para os fins do projeto, não basta dizer que existe corrupção e que esta presta sua homenagem à onipotência da grana. Afinal, corrupção existe desde a antiguidade, quando Vespasiano tributou os mictórios de Roma, desviou o dinheiro arrecadado e ainda cunhou frase de grande atualidade "Dinheiro não fede (pecunia non olet)". Não. Para ser programático, é preciso supor que a corrupção não seja algo histórico ou localizado, mas faça parte da "natureza humana". Se existe, por óbvia, na política, estende-se aos índios que cobram por suas danças da chuva; ladras de rua, catadores de papel, etc.
Ao tocar esse samba de uma nota só, Fim da Linha entra no coro do pensamento politicamente apocalíptico, segundo o qual o Brasil não vale nada e compartilham da responsabilidade pelo caos o empresário que sonega a nota fiscal e o mendigo que ameaça os pares para defender o seu ponto sob o viaduto. Trata-se de visão moralista, uma espécie de udenismo cinematográfico que passa por crítico. Quando para ser crítico, de verdade, seria preciso expressar as cisões presentes na sociedade e as contradições entre elas. Mas então a "tese" a ser demonstrada - a da universalidade da corrupção - poderia ficar comprometida. Cinema de tese fechada costuma ser autofágico. Devora-se, até mesmo quando parece ter razão.
Fim da Linha (Brasil/2008, 76 min.) - Drama. Dir. Gustavo Steinberg. 12 anos. Cotação: Ruim
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