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Como faz toda quarta-feira, Alejandro Jodorowsky sairá de sua casa, hoje à tarde, em Paris, rumando para o café da esquina, onde já estará à sua espera uma pequena multidão. São as pessoas que todas as semanas fazem fila para que ele lhes leia o futuro nas cartas de tarô. Na próxima semana, não poderá repetir esse ritual. Estará no Brasil para a retrospectiva de sua obra: filmes, gravuras, fotos, quadrinhos e, claro, o conjunto de cartas, mais numerosas e maiores que as de um baralho comum, que utiliza em sua atividade de tarólogo.O evento, com curadoria de Joel Pizzini e Guilherme Marback, começa hoje no Centro Cultural Banco do Brasil, do Rio. O próprio artista só chegará ao Brasil no dia 26, quando sua mostra desembarca em São Paulo, também no CCBB. Dois dias mais tarde, chega a vez de Brasília. Autor de filmes cults como Fando y Lis, El Topo, A Montanha Sagrada e Santa Sangre, Jodorowsky é um artista multimídia que fez teatro com Fernando Arrabal, criando o Movimento Pânico, e também escreveu quadrinhos ilustrados por Moebius. Ele concedeu ao Estado a seguinte entrevista . Na última vez em que conversamos, também pelo telefone, seu livro Quando Teresa Brigou com Deus estava sendo editado no Brasil. O que mudou em sua vida desde 2003? Tudo - acredito que o universo, como as pessoas, está em permanente transmutação. Teresa foi muito importante para mim. Me permitiu decifrar alguns enigmas de minha vida. Sempre quis saber por que meu pai, um judeu de origem russa, me havia criado no ateísmo. Estava numa fase de depressão quando iniciei a terapia regressiva, pesquisando a árvore genealógica de minha família. Descobri essa ancestral que, em 1903, brigou com Deus e com toda a comunidade judaica de uma aldeia da Ucrânia, revoltada porque uma grande enchente levou seu único filho. Você já conhece o Brasil? Não - é minha primeira viagem e estou muito excitado. O Brasil é um país misterioso para mim. Me atraem muito os ritos iniciáticos do candomblé. Você nasceu no Chile. Por que nunca veio aqui? Por um motivo simples - era tão pobre que, quando morava em Iquique, não tinha dinheiro para ir a Valparaíso. Com efeito, nasci no Chile, mas não me considero chileno. Não me considero pertencente a lugar nenhum. Mas você deve ter um passaporte, para poder viajar. Tenho um passaporte francês e vivo na França, mas sou um estrangeiro aqui como o sou no Chile e era no México, onde também vivi. Sou um estrangeiro neste mundo. Você mesmo se define como um xamã. O dicionário diz que se trata de um mago que controla os espíritos do bem e do mal, de acordo com a cultura de tribos indígenas dos EUA e também religiões primitivas do norte da Ásia. Como você se transformou num xamã? Há décadas que as pessoas me pedem para fazer chover ou para transformar ferro em ouro, como faziam os velhos alquimistas. Há muito tempo me dedico à elucidação dos mistérios da vida. Tem origem no Movimento Pânico, que criamos, Arrabal, Roland Topor e eu, nos anos 60. Em que Arrabal o influenciou? Ele não me influenciou em nada. Participávamos do movimento de igual para igual. Se ele tem uma obra importante como dramaturgo, eu também tenho e a minha obra inteira de teatro está saindo na Espanha, dia 20 (ontem), num volume intitulado Teatro sin Fin (editora Siruela). Mas eu não me interesso muito pelo passado. Se a vida está em permanente movimento, por que permanecer ligado em coisas que já foram? Dentro do mesmo princípio, você não liga muito para seus filmes cultuados dos anos 60 e 70 ? Tive de revê-los todos, pois foram remasteurizados e acompanhei o processo. Mais do que pela dramaturgia ou pelo aspecto iniciático do esoterismo, me interessei pelo aspecto visual. El Topo bebe na fonte do spaghetti western, misturando Leone e Buñuel na história do cavaleiro errante que precisa livrar uma cidade de quatro pistoleiros. O surrealismo é muito forte em sua imaginação visual. Quando criamos o Movimento Pânico em, Paris, em 1962, nossas referências eram o deus Pã e o surrealismo de Buñuel e Dalí. Nosso objetivo era traduzir a liberdade em arte e fomos incorporando tudo - pop-art, rock, ficção científica, gibis. A partir de três elementos básicos - terror, humor e simultaneidade-, postulávamos transcender os limites impostos pela sociedade, rechaçando a seriedade artística com uma explosão criativa sem regras. Com o tempo percebemos que o surrealismo foi ficando para trás. Hoje, os elementos oníricos continuam me acompanhando, mas o que me interessa é a psicomagia. E o que é isso? É a compreensão da natureza a partir de elementos da psicologia. Ela parte da premissa de que o inconsciente aceita os atos simbólicos como fatos. Interesso-me por psicanálise, mas ela não cura e, em certos casos, leva à dependência. O psicomágico pode receitar atos simbólicos que agem no inconsciente e, se bem aplicados, podem curar certos traumas. Isso está me parecendo muito esotérico. Vamos trazer o assunto para o cinema. O que a psicomagia tem a ver com cinema? No meu caso, foi filmando que descobri que o mundo está doente. São males que podem ser sanados. Acredito que o grande desafio da psicomagia é libertar a magia de sua porção mais supersticiosa, atuando no plano do racional. Nunca fiz filmes integrados à indústria cultural. El Topo virou cult nas sessões da meia-noite (midnight movies) que proliferavam por volta de 1970. Era um cinema alternativo a Hollywood, mais sensorial. Todo mundo se escandalizava quando eu dizia que um filme como El Topo era para perder dinheiro. Acredito no risco, na vida como no cinema. Um filme deve ter sobre a percepção o mesmo efeito que uma pílula de LSD sobre o cérebro. Provocando um choque no inconsciente, como a psicomagia, pode curar as neuroses. Seu cinema traduz um anseio libertário, mas eu confesso que sou louco pela morbidez de Santa Sangre, com aquela ligação incestuosa entre mãe e filho, uma coisa que remete a Psicose, de Alfred Hitchcock, mas com outras intenções. Num certo sentido, é meu filme mais convencional, porque se pode identificar nele um movimento, com começo, meio e fim, mas é subversivo porque mantém a ambição desmedida por algo superior que mistura crítica religiosa, luxúria, violência, simbolismo e surrealismo. Seu trabalho mais conhecido nos quadrinhos é a série Incal, desenhada por Moebius. O que ele acrescentou ao seu universo? De novo, é uma simbiose. Ele desenhava o que eu criava, mas o fato de não ter limites me estimulava a ir mais longe. Em Incal, misturamos tudo, tarô, cabala e Jung, que sempre me interessou mais do que Freud, criando um universo único. O cinema acabou para você? Volto a filmar no ano que vem. Tenho três projetos em desenvolvimento. Não sei qual terei condições de filmar primeiro. A questão da produção é sempre complicada. No passado, já tive de desistir de projetos aos quais me dediquei, como Duna. Espero que agora tenha mais sorte. Serviço Festival Jodorowsky. Centro Cultural Banco do Brasil (70 lugs.). Rua Álvares Penteado, 112, Centro, tel. 3113-3651. R$ 4. Até 9/12. Abertura dia 28/11 Luiz Carlos Merten
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