Depois de virar o maior fenômeno da história da pirataria de vídeos e DVDs no País, Tropa de Elite poderá receber nesta segunda-feira seu maior público desde que estreou nos cinemas. Afinal, você não vai querer perder a pechincha de pagar apenas R$ 2 para ver o filme de José Padilha com Wagner Moura na pele do polêmico Capitão Nascimento.
E não apenas Tropa de Elite - O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, filme de Cao Hamburger que foi indicado pelo Brasil para pleitear uma vaga no próximo Oscar; Cidade dos Homens, de Paulo Morelli; Antônia, de Tata Amaral; Não por Acaso, de Philippe Barcinski; Ó Paí Ó, de Monique Gardenberg; Saneamento Básico - O Filme, de Jorge Furtado; A Grande Família - O Filme, de Mauricio Farias; Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton; O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia; O Passageiro - Segredos de Adulto, de Flávio Tambellini; O Homem Que Desafiou o Diabo, de Moacyr Góes; Inesquecível, de Paulo Sérgio Almeida; O Primo Basílio, de Daniel Filho; e três infantis, O Cavaleiro Didi e a Princesa Lili, Xuxa Gêmeas e Turma da Mônica, Uma Aventura no Tempo, todos integram a lista de filmes nacionais que a rede Cinemark estará exibindo nesta segunda-feira no já tradicional evento que se chama Projeta Brasil.
É a oitava edição do Projeta Brasil e, nestes sete anos, cerca de um milhão de espectadores já passaram pelas salas da rede Cinemark para prestigiar este dia destinado a promover unicamente a produção brasileira. Este ano, o Projeta Brasil estará ocorrendo nas 358 salas que formam os 43 complexos da rede em todo o País, apresentando filmes lançados entre novembro de 2006 e outubro de 2007. A diretora de marketing da rede, Adriana Cacace, lembra que, nas suas origens, o Projeta Brasil apresentava filmes a R$ 1, mas mesmo com a duplicação do preço do ingresso simbólico ele ainda continua muito abaixo do que é normalmente cobrado. Programando-se direitinho, o espectador poderá matar sua fome de cinema brasileiro assistindo a cinco filmes - cada sala apresenta em média cinco sessões por dia - por preço inferior a um ingresso normal.
Adriana explica que o Projeta Brasil surgiu com o objetivo de atrair o público tradicional da rede para o filme brasileiro. Não é segredo para os cinéfilos que o cinema nacional é estrangeiro na própria casa, na medida em que o circuito exibidor está formatado para prestigiar o produto de fora - eufemismo para dizer de Hollywood. Neste dia, o cinema brasileiro dita as cartas , e com ótima aceitação - em torno de 150 mil espectadores para cada uma das edições já realizadas do Projeta Brasil. Adriana destaca outro ponto importante - com apoio dos próprios distribuidores, toda a renda movimentada neste dia reverte em ações de incentivo ao cinema, premiando filmes em festivais nacionais e também ajudando na restauração de obras ameaçadas e na remodelação de salas como a do Centro Cultural São Paulo.
Tudo isso é importante, mas o melhor de tudo é esta possibilidade de desmistificar o que já virou dogma do cinema brasileiro. Com razão, produtores lembram que a melhor participação do cinema nacional no próprio mercado ocorreu nos anos 70, quando havia um número muito maior de salas com ingressos populares, geralmente em cinemas de rua. Hoje, os cinemas localizam-se quase todos em shoppings, onde não apenas o ingresso é mais caro, como também se soma a despesas na praça da alimentação - tudo isso proibitivo para um público que nem costuma ter acesso ao shopping como centro de lazer e consumo.
Resta a polêmica da data escolhida. Por que o 5 de novembro? Muita gente cultua 19 de junho como Dia do Cinema Brasileiro porque em 1898, regressando da Europa, Afonso Segreto teria realizado nesta data a primeira filmagem no País, com imagens da Baía de Guanabara. Mas a verdade é que, antes dele, José Roberto Cunha Telles havia depositado, em 27 de novembro de 1897, no Arquivo Nacional, os originais de outra filmagem que fizera no começo do mês (dia 5?). Os 11 fotogramas que sobraram, mostrando um píer banhado pela ondas do mar, foram transformados por Carlos Adriano numa obra-prima de 18 minutos de duração - Remanescências. Em 5 de novembro de 1983, há 24 anos, morria o pioneiro Humberto Mauro e o pai do cinema brasileiro bem pode ser lembrado com um dia do cinema nacional.