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Stulbach: ''''A TV não nasceu para ser cult ou trash''''
Quarta-Feira, 26/12/2007, 11:52am (GMT-2)

O premiado ator Dan Stulbach foi atrás de seus projetos e hoje é o que se pode chamar de agitador cultural. Comanda um teatro, toca um programa de sucesso no rádio, se prepara para dirigir uma peça com Joana Fomm e ganhou o papel principal na primeira minissérie do ano da Globo: Aos Meus Amigos, de Maria Adelaide Amaral. Está feliz não só por ser o protagonista Léo, um intelectual que se suicida, mas pela oportunidade de trabalhar em uma história que mostra a efervescência cultural paulistana dos anos 80. "Esse é o tipo de trabalho que melhora a vida do ator."

Há quatro anos, seu sonho era fazer um grande personagem em uma minissérie. Você chegou lá, não é?


Cheguei sim e de uma maneira muito especial. Eu ia trabalhar na minissérie Nassau, de Maria Adelaide Amaral, que foi cancelada. Em uma conversa, falei de minha admiração pela geração dos anos 80, pela efervescência cultural em São Paulo, que ela retrata bem no romance Aos Meus Amigos, e sugeri a minissérie. Ela me chamou para fazer o protagonista Léo, inspirado no escritor e publicitário Décio Bar, morto em 1986.

Do que se trata a minissérie?

De um sujeito que se suicida. É uma história sobre amizade e morte, que retrata bem uma época rica, da qual fazem parte a literatura de Maria Adelaide, de Caio Fernando Abreu, Madame Satã e o movimento Lira Paulistana. A minissérie começa com a morte de Léo.

Como é entrar em um personagem marcado para morrer?

Adoro o tema do tempo. A consciência da finitude nos faz acordar para o mundo, a nos tornar mais sinceros e a não perdermos tempo com bobagens. Esse é um tipo de trabalho que melhora a vida do ator. Sinto a sensação de urgência toda vez que vou gravar, esse personagem me deixa mais sensitivo.

Você sente que a televisão te absorveu de alguma maneira?

Já fui o ator de teatro que deu certo na TV, agora me sinto um ator de teatro e de TV. Nunca fui desses atores que falam mal da televisão, porque acho que é um veículo que tem alto valor cultural no País. Sempre tive ótima relação com a Globo, já tive contrato longo, mas agora tomei a decisão de tê-la como parceira e ser dono do meu tempo e fazer outras coisas das quais gosto.

Você se tornou diretor do espaço teatral da Livraria Cultura. Qual é o seu projeto?


A idéia de fazer o teatro lá foi minha. Montei o projeto e passei mais de um ano convencendo o Pedro Herz a trocar a construção de um auditório convencional por um teatro de 180 lugares. Quando consegui, Pedro me pediu para cuidar do Teatro Eva Herz, que foi inaugurado com Fernando Pessoa em Remix, com Jô Soares, cuja temporada foi um sucesso. Temos agora um espetáculo infantil Morgana, com Rosi Campos, que tem lotado. A idéia é montar espetáculos com atores de São Paulo que não têm oportunidade de mostrar seu trabalho em um bom teatro. Quero ministrar cursos de interpretação, afinal passei 11 anos da minha vida dando aula de teatro na EAD (Escola de Arte Dramática da USP) e outras escolas.

Você se sente preparado para tocar o projeto?

Visitei muitos teatros pequenos em Nova York para ver como funcionavam e fiz um curso de administração de teatro em Berlim. Tenho uma equipe pequena, mas eficiente. Não é fácil, porque só temos o ingresso para bancar a estrutura. Acho que o caminho é buscar patrocínio, tenho mostrado o projeto a muitas empresas e consegui o patrocínio da Omint, uma companhia de seguro de saúde.

Você atua em muitas frentes. Em qual delas você se sente mais à vontade?

Gosto muito de atuar. Adoro fazer o programa de rádio (Fim de Expediente, na CBN), afinal fiquei mais de um ano com essa idéia na cabeça até convencer uma emissora a topar o projeto. Não imaginava que o programa fosse dar tão certo.

E como você lida com a sua popularidade?

Mas não gosto muito de aparecer porque assim as pessoas acreditam mais no personagem. Não gosto da idéia de aparecer nas revistas em castelos e campos de golfe. Quero um outro tipo de imagem, que me credencie a tocar os meus projetos.

Qual foi seu melhor papel: no teatro, cinema e TV?

Foi o papel de Clauszevits, da peça Nova Diretrizes em Tempos de Guerra, de Bosco Brasil, que deu a grande força à minha carreira de ator.

E o ruim?

Foi em O Rei do Gado. Quando fiz a oficina de atores da Globo, eu e Lavínia Vlasak fomos contratados. Passou-se um ano sem me chamarem e quando o fizeram, para O Rei do Gado, eu não pude ir porque estava em turnê no Paraná com Édipo Rei. No final da novela me requisitaram para fazer praticamente uma ponta: o jornalista que dá a notícia da queda de Bruno Mezenga, personagem de Antônio Fagundes.

Você já recebeu proposta de outras emissoras?

A Record já me chamou para fazer novela. E o SBT me ofereceu um salário muito alto para apresentar um programa feminino no domingo, entre o programa do Gugu e do Silvio Santos, enquanto rodasse o futebol na Globo. Não topei.

Como um articulador cultural, como você o conteúdo da televisão brasileira?

Por causa de seu compromisso comercial, da luta pela audiência, a televisão resvala muitas vezes para programas sem o mínimo valor cultural, para a exploração do ridículo e para o preconceito. E há momentos em que ela se liberta desse compromisso e ousa. Não sou partidário de nenhum desses extremos. Acho que a sabedoria está no equilíbrio. A TV não nasceu para ser cult e nem para ser trash.

O que você acha ruim e bom?

Os programas de auditório que travestem crianças de adultos. Exemplo bom foi a série Soy Loco Por Ti América, que Denise Fraga fez no Fantástico.

Você tem outros projetos em mente para a televisão?

Houve uma sondagem para eu protagonizar uma novela em 2008, mas não sei se vou aceitar. Vou dirigir uma peça com a Joana Fomm e quero voltar ao palco como ator. Quando estou viajando com uma peça eu sou muito feliz.
Leila Reis