Sabendo

Um ano morno movido a crises
Quarta-Feira, 26/12/2007, 01:51am (GMT-12)

2007 não foi um ano memorável no campo das artes visuais. Algumas poucas exposições de grande destaque, o acirramento de crises institucionais que vêm se arrastando há tempos e um curioso revival da década de 70 parecem ter sido os aspectos que mais se sobressaíram ao longo deste ano insosso, que terminou de forma bombástica com o furto das telas de Picasso e Portinari das salas de exibições do Masp. Sem que houvesse um vigia, alarme ou mesmo câmera de infravermelho que permitisse identificar os assaltantes, as telas foram retiradas em menos de três minutos das salas de exposição do segundo andar durante a troca de guarda, evidenciando mais uma vez a profunda fragilidade da instituição que se vangloria de ter o maior acervo de arte moderna da América Latina, mas que há anos vem se fragilizando em função de uma administração centralizadora e da inexistência de mecanismos eficazes e democráticos de transição.

Evidentemente, se pensarmos do ponto de vista daqueles que se dedicam à arte no País, há uma certa injustiça nesse diagnóstico. Afinal, ocorreram exposições de grande qualidade e os artistas continuaram produzindo enquanto se debatiam os rumos da Bienal ou se prolongava a crise do Masp. No entanto, foram acontecimentos solitários, incapazes de dar ao circuito o vigor do qual ele parece estar profundamente necessitado.

No campo dos já tradicionais eventos programados a cada dois anos, o destaque ficou por conta da Bienal do Mercosul que, na sua 6ª edição, mostrou ser possível conciliar correção administrativa e respeito ao projeto curatorial, dois aspectos em falta na sua congênere paulistana. A grave e complexa crise de longo prazo vivida pela instituição cinqüentenária parece ter se acirrado este ano. Centralismo, acusações de desvios perpetrados pela presidência da fundação, inexistência de um projeto maior que sustente e justifique a realização das mostras, profundo descompasso entre a instituição e os principais atores do circuito compõem um cenário complicado.

A explicitação dessa situação, no entanto, pode ser vista como algo positivo, já que a exposição das chagas ajuda a pressionar na direção das reestruturações que a instituição tanto precisa. É seguindo esse caminho que Ivo Mesquita assumiu a curadoria e propôs substituir a edição de 2008 do evento por um grande debate em torno do projeto da Bienal. Trata-se de uma iniciativa promissora, mas que só terá efeitos concretos se for além da mera maquiagem e dos golpes de impacto, por si só estéreis. Para gerar frutos, a reflexão proposta deve, necessariamente, vir acompanhada de vontade política, de ações efetivas de saneamento e transformação da instituição e de seu projeto cultural.

Ainda no campo da política cultural, alguns acontecimentos marcantes ocorreram neste ano. Em destaque a celebrada transferência do MAC para o Detran - o projeto de reforma está a cargo de Oscar Niemeyer, ainda na ativa apesar de seus 100 anos, muito celebrados ao longo de 2007 - e a iniciativa da Prefeitura para retomar o MuBE. O resgate do museu para fins mais nobres do que aluguel para eventos, feirinhas de antiguidades e exposições de qualidade duvidosa talvez venha a ser o legado mais importante do ano, mas ainda depende de decisão judicial, que deve sair ainda no primeiro semestre de 2008. Mais do que viabilizar a realização de projetos culturais de maior densidade, a possível recuperação do espaço sinaliza também uma maior esperança de que o poder público passe a desempenhar com mais afinco seu papel no controle das instituições culturais do País, muitas vezes deixadas à mercê de pequenos grupos de poder.

No que se refere à programação expositiva propriamente dita, pode-se dizer que predominaram as mostras individuais de qualidade, seja em galerias comerciais ou em espaços museológicos (Só para citar alguns exemplos, podemos mencionar as mostras de Paulo Pasta, Carmela Gross, Emanoel Araújo, Thomas Ianelli, Iran do Espírito Santo...). No campo das grandes coletivas, foram poucos os destaques. Dentre eles se sobressai O Cinético, ainda em cartaz no Instituto Tomie Ohtake. Trata-se de um amplo panorama da produção cinética internacional e sobretudo latino-americana, organizado pelo Museu Reina Sophia, da Espanha, que seduz o olhar e amplia a reflexão sobre uma arte feita de luz e movimento.

Outra mostra a propor um apanhado geral, desta vez da arte brasileira reunida na coleção do Itaú, acabou transformando-se num dos grandes escândalos do ano. O problema não foi a seleção proposta, mas a forma como as obras foram exibidas, deitando telas ao chão de maneira um tanto leviana, privilegiando o espetáculo em vez de fruição da obra. Uma curiosidade que ganha vulto quando se analisa retrospectivamente os principais destaques da programação de 2007 é a grande recorrência de exposições voltadas para a produção da década de 70, possibilitando uma compreensão mais ampla da importância da arte conceitual no País, com destaque para as mostras de Paulo Bruscky no MAC e a curadoria de Glória Ferreira, também no Instituto Tomie Ohtake.

Já o Panorama do MAM, outro evento já tradicional que nos últimos tempos tem caído nos anos ímpares, parece vir mantendo uma mesma toada morna. Do Cristo de rapadura apresentado em 2005 por Caetano Dias à lombada feita de paçoca por Débora Bolsoni, pouco parece ter mudado. Organizadas em torno de projetos independentes, as mostras apresentam uma mescla de obras muito interessantes (como os trabalhos de Gil Vicente, Marepe e Chelpa Ferro, na edição atual) a propostas de menor interesse, ou de impacto imediato, mas que se diluem com o tempo.

Nem mesmo as esperadas mostras internacionais (como as de Anish Kapoor Leonardo da Vinci e Yoko Ono), ou as leituras históricas (Almeida Jr., Aleijadinho ou Missão Francesa) conseguiram romper a sensação de marasmo. Apenas um desses eventos importados, a histriônica mostra exibindo corpos humanos plastificados parece ter conseguido atrair o público em peso, ora alegando que se trata de um trabalho "artístico" de tão perfeito, ora atribuindo a si um encantador poder didático ao exibir entranhas "reais" num mórbido e bastante questionável espetáculo.

O Masp, que finalmente acordou para a necessidade de ter um curador capaz de dar sentido às suas atividades, também deixou a desejar com mostras de grande potencial midiático, como a exposição enlatada dedicada a Charles Darwin. Mas parecia indicar um caminho interessante de resgate de seu acervo, colocando em cena uma nova releitura das obras-primas dessa coleção e dedicando-se a mostras menos retumbantes, mas de grande qualidade, como o conjunto de gravuras de Goya. O furto de duas das telas mais chamativas - não necessariamente as mais valiosas - do acervo revela, no entanto, que não basta meias soluções para resolver o problema do museu. Apenas uma política transparente, coerente e ativa, com o envolvimento efetivo da sociedade civil e do poder público - que há mais de uma década oscilam entre o conformismo e os protestos de pequeno efeito -, pode tirar esse museu da profunda crise financeira, administrativa e identitária na qual ele se encontra.
Maria Hirszman