Sabendo

A honorável sra. Ono
Quinta-Feira, 08/11/2007, 10:14am (GMT-2)

A produção artística de Yoko Ono é muitas vezes eclipsada por sua figura. A viúva do ex-Beatle John Lennon (assassinado em 1980) é artista multifacetária: nascida em Tóquio, em 1933, tem uma produção na área das artes plásticas desde a década de 1950 e, ainda, é nome também da área musical - em entrevista ao Estado, ela se gabou de ter seus dois últimos álbuns, lançados em 2007 - Yes, I''''m a Witch e Open Your Box - na ''''lista dos top 10''''. Mas agora, em São Paulo, tem-se a oportunidade de mergulhar um pouco mais em suas criações artísticas. Hoje à noite, às 21 horas, ela realiza a performance Uma Noite com Yoko, no Teatro Municipal, e no sábado ela inaugura no Centro Cultural Banco do Brasil a exposição Yoko Ono - Uma Retrospectiva, que, como diz o título, perpassa sua carreira por meio de uma seleção de cerca de 70 de suas obras, incluindo vídeos e registros de performances, criadas entre a década de 1960 e 2005.

Sobre a performance no Municipal, não é possível saber muito. ''''Se eu explicar em palavras o que fica? Performance é algo muito físico'''', afirma Yoko. Mas sobre a mostra, que ficará em cartaz apenas em São Paulo, é possível conversar. A exposição, com curadoria de Gunnar Kvaran, crítico islandês e diretor do Astrup Fearnley Museum, em Oslo, já foi vista na cidade norueguesa em 2005.

Como diz o curador, a exposição se articula a partir de dois eixos: a reunião dos trabalhos da série Instructions for Paintings (Instruções para Pinturas), que a artista iniciou na década de 1950 e realizou até 1996, e os objetos. Sobre os Instructions, estão na mostra 36 deles, criados a partir de 1962. O trabalho, exibido nas paredes, são réplicas de papéis (porque a artista pedia que eles fossem destruídos depois de copiados) onde Yoko escreveu, em japonês, ''''como haikais'''', diz Gunnar, instruções simples e poéticas para o público fazer (estão traduzidas). ''''É um trabalho que trata da arte no estado da idéia e que pede nossa colaboração'''', diz o curador. Criadora, que se define como artista conceitual, Yoko produz muitas obras que pedem essa participação do visitante ou de outros artistas, como no trabalho Water Event (1971) apresentado aqui em versão de 2005 na qual participaram os brasileiros Cildo Meireles e Rivane Neuenschwander.

Estão também no CCBB o Add Color Painting (1960) - duas grandes telas em branco poderão ser pintadas - e Painting to Hammer a Nail (1961) - em que objetos martelados, quebrados, poderão ser reconstituídos pelo público. Já Wish Tree for Brazil, na entrada, é depositário dos desejos escritos pelo público e na grande instalação Morning Beams, que ocupa todo o hall do CCBB, há cordas e pedras que poderão ser colocadas em duas caixas, uma para os bons pensamentos, outra, para os maus. Está também a célebre obra Ceiling Painting (Yes Painting), que seduziu Lennon: ao subir uma escada branca de madeira, damos de encontro com a palavra ''''sim''''.

Há também instalações que não pedem participação. Endangered Species, representa, em caixas, os últimos pensamentos de uma família carbonizada. Há uma carga surrealista, feminista e até violenta também em suas obras. Em Half-a-Room, tudo de um quarto está ao meio. Nos Blood Pieces (anos 80), objetos do cotidiano familiar, especialmente, feminino, fundidos em bronze, estão rajados de vermelho - o único masculino é uma camisa com uma bala no peito, menção à morte de Lennon.
Camila Molina