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Emilio Botín III, o espanhol que preside o banco Santander, parece lutar contra a atual lógica do capitalismo financeiro. Tudo indicava que a era das dinastias de banqueiros tinha sido enterrada ao longo do século 20, com a perda do poder de famílias lendárias, como Rothschild, Morgan e Warburg -- sobrenomes ainda sinônimos de riqueza e influência, mas hoje distantes do comando dos maiores bancos do mundo. Botín, por sua vez, percorreu um caminho diametralmente oposto nas duas últimas décadas. Levou à elite do mundo das finanças o Santander -- fundado por seus antepassados há exatos 150 anos, presidido antes por seu pai, Emilio Botín II, e por seu avô, Emilio Botín I. Quando assumiu a presidência do banco, em 1986, aos 52 anos, o Santander era o 152o maior do mundo e, no mercado espanhol, apenas o sétimo. Após uma seqüência notável de aquisições em série, já há dez anos ocupa a liderança na Espanha. A estréia na lista dos dez maiores do mundo por patrimônio foi em 2005. Na mais recente demonstração de seu arrojo, Botín participou da compra do banco holandês ABN Amro, o maior negócio bancário de todos os tempos, num consórcio formado com o britânico Royal Bank of Scotland e o belga Fortis. Com isso, o Santander deve passar a ostentar o título de oitavo maior banco do mundo.
Trata-se, sob qualquer ângulo que se olhe, de uma ascensão impressionante. Nos últimos 20 anos, o banco espanhol foi o segundo que mais galgou posições no ranking global, atrás apenas do britânico HBOS -- que, é bom que se diga, não está no clube dos dez. Na capacidade de surpreender e agitar o mundo financeiro, ninguém bate o Santander. Para analistas de todo o mundo, o banco foi o mais beneficiado pela divisão feita pelos membros do consórcio após a compra do ABN Amro pela cifra de 101 bilhões de dólares. No Brasil, ficou com o Real e, numa tacada, saiu da sétima para a terceira colocação no ranking dos maiores bancos por ativos, à frente do Itaú e encostado no Bradesco -- um feito inédito para um banco estrangeiro. Na Itália, país que Botín tentava conquistar há tempos, irá operar o Antonveneta, forte na região norte e o oitavo do país. Quem ouviu o comandante do Santander apresentar os resultados de 2006 na Espanha, em maio, não ficou surpreso com o mais recente negócio. Na ocasião, Botín já havia deixado bem claro o que quer: "Meu objetivo é ganhar o campeonato mundial dos bancos".
É esse espanhol, com perfil de matador, que agora terá tamanho e musculatura no Brasil para brigar pela liderança, o que torna o jogo bem mais difícil para os concorrentes. Será o maior teste para os bancos brasileiros desde a abertura do mercado local na década de 90. Os bancos nacionais saíram-se notavelmente bem nesse período nos limites do mercado brasileiro. Começam a ensaiar a expansão internacional. Mas ainda são pequenos em termos globais. O Banco do Brasil, o número 1 no país, é apenas o 97o do mundo em ativos, o Bradesco, o 105o, e o Itaú, o 121o. Num setor em que escala é importante, isso pode fazer muita diferença. ENTRE TODAS AS PALAVRAS USADAS PARA DESCREVER Botín -- centralizador, ambicioso, realista, calculista, intuitivo, visionário, workaholic, autoritário, competitivo, obstinado --, o adjetivo que melhor descreve sua personalidade é agressivo. E ele parece ter orgulho dessa sua característica. Seu livro de cabeceira é o milenar manual de estratégia A Arte da Guerra, do chinês Sun Tzu. Contra a opinião de vários especialistas em marketing, Botín escolheu pessoalmente o piloto espanhol de Fórmula 1 Fernando Alonso como garoto-propaganda da campanha mundial do Santander. Na própria Espanha, Alonso é uma figura polêmica -- está muito mais para Nelson Piquet do que para Ayrton Senna. No campeonato atual, esteve envolvido no escândalo de espionagem de sua escuderia, a McLaren, na concorrente Ferrari. Qual foi a justificativa para a arriscada opção de Botín? Alonso encarnaria como ninguém o esportista obcecado pela vitória, não por coincidência uma característica muito destacada também no banqueiro. Essa qualidade de Botín, comum à maioria dos empresários de sucesso, aparece nos mínimos detalhes. Logo após assumir a presidência, trocou a cor do banco de um plácido verde para um vermelho caliente e, desde então, só usa gravatas desse tom. "Botín sempre teve a determinação de vencer e provar à família que era melhor que seus antepassados", diz Adrian Tschoegl, professor da escola de negócios Wharton, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e um dos autores do livro Santander, el Banco ("Santander, o banco"), publicado em junho na Espanha e que terá uma versão em português no ano que vem. "Ele está por dentro de todos os assuntos, trabalha 16 horas por dia e o banco é a sua vida", diz Guillermo de La Dehesa, que conhece Botín desde a década de 70, era amigo de seu pai e faz parte do conselho do banco. Essa ânsia pelo sucesso fez com que Botín lançasse produtos que, na visão da Procuradoria espanhola, passaram dos limites. Até hoje o presidente do Santander responde a processos por lavagem de dinheiro e sonegação fiscal.
Seu principal defeito, dizem os críticos, é um autoritarismo que beira a prepotência. "O presidente controla absolutamente tudo", diz um vice-presidente do banco sob a condição de não ter seu nome revelado. Reza a lenda que em certa ocasião Botín pediu uma encomenda pessoal a um executivo do Santander que viajava a negócios para Nova York. "As minhas gravatas-borboleta estão um pouco velhas. Antes de voltar a Madri, me compre um lote novo", teria dito. Na volta, Botín escutou impassível seu eufórico subordinado relatar o sucesso do negócio realizado durante a viagem e, ao final da exposição, perguntou: "E as minhas gravatas?" O executivo empalideceu. Esquecera as gravatas. "Pois então é melhor você se apressar porque o próximo vôo para Nova York sai em pouco tempo", teria dito Botín. Verdade ou não, o fato é que a história costuma ser contada a quem entra no banco -- em óbvio tom de ameaça. Quem conhece Botín não estranha a agressividade do Santander. "É impressionante como ele consegue que todos nós coloquemos a gravata vermelha no pescoço e a faca nos dentes", diz um diretor do banco na Espanha, outro que prefere não se identificar. Em 20 anos, o banco investiu cerca de 60 bilhões de dólares para realizar mais de 35 aquisições, o que dá a média de uma compra a cada sete meses. A prioridade até agora tem sido o Brasil, o país que mais recebeu investimentos fora da Espanha. Por aqui, Botín mostrou a que veio em 2000, quando pagou 3,6 bilhões de dólares na tumultuada privatização do Banespa, 236% mais que o segundo lance no leilão, o do Unibanco. Logo depois, gastou mais na compra de ações dos minoritários, totalizando 5 bilhões de dólares na aquisição do ex-banco estatal paulista. Antes do Banespa, tinha pago cerca de 2 bilhões de dólares pelos bancos Meridional/Bozano, Simonsen, Noroeste e Geral do Comércio. Com a compra do Real ABN Amro por 17 bilhões de dólares, entrou para a história como o protagonista da aquisição mais cara do sistema financeiro local. O QUE ESTA POR TRAS DE TAMANHO interesse pelo mercado brasileiro? Segundo Francisco Luzón, vice-presidente responsável pela divisão Américas do banco, o país passa por uma transformação econômica inédita. "O que vemos na América Latina nos agrada muito. Estamos no meio de uma revolução, a revolução da classe média emergente", disse ele recentemente, numa palestra realizada na Universidade Menéndez Pelayo, na cidade de Santander, onde o banco foi criado. De acordo com suas projeções, em 2010, pela primeira vez na história da América Latina, o número de lares das classes A, B e C será maior do que a soma das classes D e E -- serão 70 milhões de famílias com renda anual acima de 12 000 dólares pelo critério de paridade de poder de compra, a maior parte no Brasil. Diz Luzón: "Uma sociedade democrática na qual predomina a classe média tem comportamentos e necessidades muito distintas. Isso aconteceu na Espanha no passado recente e agora está acontecendo na América Latina". A percepção de que o Brasil subiu um patamar em termos de atração de investimentos e confiança tem se generalizado entre as grandes empresas globais. Um dos temas mais comentados pelos principais executivos de 19 multinacionais americanas e brasileiras reunidos no começo deste mês em Brasília foi justamente o bom momento da economia do país. "Para a General Motors, o Brasil se tornou um mercado prioritário. Em 2007, deverá ser o terceiro maior, atrás apenas dos Estados Unidos e da China", disse Ray Young, presidente da GM no Brasil, recentemente promovido a vice-presidente financeiro global da multinacional. No leilão de concessões de estradas federais realizado no dia 9 ficou óbvia a atratividade do Brasil. A empresa espanhola OHL ganhou cinco dos sete trechos oferecidos e a Acciona, outra espanhola, arrematou um. No caso do setor bancário, algumas previsões em particular colocam o Brasil no topo da lista de países emergentes com mais potencial de gerar bons negócios. Hoje, a relação entre crédito e PIB, por exemplo, é de apenas 32%, ante 58% no restante dos Bric (Rússia, Índia e China). O crédito imobiliário deve crescer do atual 1,7% do PIB para cerca de 5% em 2010 e, quatro anos depois, atingir 12%.
O plano de Botín, que surfou como nenhum outro banqueiro a expansão da classe média espanhola a partir dos anos 80, é usar no Brasil e no restante da América Latina a estratégia adotada em casa há 20 anos. Vai aumentar seus esforços para vender financiamentos para a compra da casa própria, cartões de crédito, seguros e crédito ao consumo. No Chile, o banco já é o líder e, no México, o terceiro. Faltava chegar ao topo no Brasil. Do ponto de vista do Santander, a decisão de expandir a sua presença no mercado brasileiro foi concretizada no momento certo e com o parceiro ideal. "É característico de Botín o apurado faro para oportunidades", diz Manuel Romera, diretor de finanças do Instituto de Empresa, de Madri, uma das mais prestigiosas escolas de administração da Europa. Em muitos sentidos, o banco espanhol e o Real parecem mesmo ter sido feitos um para o outro. O Santander é forte na Região Sul e em São Paulo. O Real, embora atue nacionalmente, tem presença particularmente marcante no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e em São Paulo. Os espanhóis fizeram durante anos um esforço junto às grandes empresas, enquanto o Real tem penetração no mercado de pequenos e médios negócios. Juntos não são apenas complementares, mas formam o maior banco de São Paulo, com 20% do mercado.
O surgimento de um novo gigante no Brasil cria uma situação à primeira vista contraditória. Um número menor de bancos deveria significar menos competição, mas o que muitas vezes acaba acontecendo é justamente o contrário. "Com o Real, o Santander torna-se um concorrente de peso, que consegue competir em pé de igualdade com Bradesco e Itaú, o que aumenta a pressão por resultados entre os maiores bancos", diz Paul Gruppo, presidente da consultoria alemã Roland Berger no Brasil. Espera-se, porém, que o Santander perca parte dos clientes do Real, insatisfeitos com o estilo do banco espanhol -- as estimativas vão de 3% a 10% do total. Além de não encarnar a imagem de responsabilidade socioambiental cultivada há anos pelo banco holandês, o Santander é essencialmente uma instituição de varejo e tem muito menos conhecimento que o Real nos segmentos de alta renda e private bank. É essa a brecha que pode ser explorada pelos concorrentes. COMO SERA O CONTRA-ATAQUE DE BANCO DO BRASIL, Bradesco, Itaú e Unibanco à ofensiva do banco espanhol é, hoje, a grande especulação do mercado financeiro. Os movimentos defensivos mais esperados são o aumento das linhas de crédito, a busca agressiva por clientes e -- claro -- novas compras de bancos. "A notícia de que o Santander ficaria com o Real foi o catalisador da nossa decisão de incorporar os bancos dos estados de Santa Catarina, Piauí e de Brasília", diz Aldo Mendes, vice-presidente do Banco do Brasil, o líder do mercado. A alta direção do Bradesco há meses tem uma análise sobre o impacto do crescimento do Santander e se diz pronta para a briga. "A fusão do Santander com o Real criará um novo e forte concorrente", diz Roberto Setubal, presidente do Itaú. Apesar da indiscutível disposição dos grandes bancos, o fato é que restaram poucos concorrentes para ser comprados depois da consolidação bancária verificada na última década. Hoje, a aposta dos analistas recai sobre instituições de médio porte -- em especial, aquelas que ainda não fizeram a abertura de capital na bolsa de valores, como o Mercantil do Brasil e o Banco do Estado do Espírito Santo (Banestes), se for privatizado. "A aquisição de bancos menores não chega a mexer no ranking, mas pode significar vantagens competitivas para o comprador", diz Ceres Lisboa, analista de bancos da agência de classificação de risco Moody's. A julgar pela trajetória do Santander no Brasil, o banco dirigido por Botín deverá manter sua característica agressividade. No ano passado, o Santander protagonizou a maior disputa por clientes já vista no mercado brasileiro ao brigar com a Nossa Caixa pelas contas de 1,2 milhão de funcionários públicos de São Paulo. Isentou os servidores de tarifas, montou uma equipe de 760 gerentes e enviou um kit com brindes e informações aos correntistas. Só com o kit, estima-se que o banco tenha gasto cerca de 10 milhões de reais -- o suficiente para veicular um comercial de 30 segundos no horário nobre da Rede Globo por mais de um mês. Tudo porque o edital de privatização do Banespa previa a transferência da folha de pagamentos dos servidores para a Nossa Caixa depois de seis anos. O banco também é famoso por suas inovações. Em 2005, lançou financiamentos para a casa própria com taxas de juro fixas. Recentemente, foi um dos primeiros a estender o prazo de pagamento para 30 anos. Desde que a compra do Real pelo Santander foi confirmada, o tema que domina todas as conversas de corredor dos dois bancos e agita as consultorias de recrutamento é como será a direção da nova instituição -- em especial, qual será o destino do atual presidente do Real, Fabio Barbosa. Se mantiver o padrão que seguiu na maioria das outras compras de bancos que fez ao longo de sua história, o Santander deverá substituir a cúpula do Real por executivos de seu próprio quadro -- não necessariamente espa nhóis, mas gente que conhece o modus operandi do banco e, principalmente, que seja da confiança de Botín. Foi exatamente isso que ocorreu no Banespa e no britânico Abbey National Bank, as duas maiores transações feitas pelo Santander até a compra de parte do ABN Amro. No primeiro caso, Botín destacou o colombiano Gabriel Jaramillo para comandar a operação brasileira, cargo que ele ocupa até hoje. Jaramillo começou a trabalhar no Santander em 1994 e, desde os primeiros tempos, ganhou a confiança de Botín. O Real, no entanto, tem uma diferença importante em relação a outros bancos comprados pelo Santander: possui um corpo de executivos considerado de alto nível, responsável por comandar uma operação lucrativa e eficiente. Barbosa, em particular, é um dos principais banqueiros do país, além de presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Por isso, não se descarta a possibilidade de ele assumir o lugar de Jaramillo, que seria promovido a uma presidência regional. A questão em torno da permanência de Barbosa é relevante porque pode indicar qual caminho tomarão os vice-presidentes e di retores do Real. "Se ele sair, a maior parte da cúpula deve ir junto, porque existe lealdade e identificação de valores entre eles", diz o executivo de uma consultoria de recrutamento de profissionais de alto escalão. "Todos já receberam ao menos uma proposta, mas estão esperando para ver os desdobramentos da transação." O documento apresentado pelo Santander a seus acionistas deixa claro quais serão os passos uma vez que o Banco Central aprove a operação. Primeiro, será a fase de corte de custos e integração da área de tecnologia, o coração de um banco, que permite a um cliente do Piauí entrar numa agência no Paraná e sacar dinheiro ou imprimir seu extrato. Segundo a avaliação do próprio Santander, feita antes da confirmação do negócio, o Real teria espaço para aprender com o banco espanhol em termos de eficiência administrativa, setor que deverá sofrer os maiores cortes de pessoal. Fechado esse ciclo, começará a integração da alta direção dos dois bancos. No documento entregue aos acionistas, o Santander faz uma previsão otimista ao estimar que a maior parte do ajuste será feita sem sangue. Como a rotatividade é alta no sistema bancário brasileiro, por volta de 20% ao ano, o número de demitidos, alega o banco, tem chance de ser pequeno. O esperado por uma das pessoas que mais conhecem a operação do Santander no Brasil é algo em torno de 30% do quadro. No Banespa, um dos pontos mais espinhosos da integração foi justamente a demissão de funcionários do ex-banco estatal -- estima-se que metade dos 22 000 empregados tenha saído, a maioria via plano de demissão voluntária. "O banco perdeu muito tempo para digerir o Banespa, levou mais de três anos, quase o dobro do que esperava", diz Ceres, da Moody's. Um especialista em processos de integração estima que o Santander, agora mais experiente e diante de um banco de primeira linha, levará cerca de um ano para absorver o Real. A marca deve desaparecer num prazo de três anos. Depois disso, toda a rede passará a usar o nome Santander. BOTIN, O IDEALIZADOR DA EXPANSÃO NO BRASIL, deverá estar fora da direção do banco quando os resultados mais concretos da compra do Real começarem a aparecer. Há cincos anos, ele alterou os estatutos para acabar com a regra que previa a aposentadoria do presidente que atingisse 72 anos. Como já está com 73, é inevitável que se comece a especular sobre sua sucessão. Trocas de comando costumam ser processos delicados que, se malconduzidos, podem minar os negócios de uma empresa. No Santander, o assunto é ainda mais sensível porque uma das explicações para o sucesso do banco nos últimos 20 anos é justamente a estrutura de poder centralizada em Botín, o que evitou perda de tempo com disputas internas. A candidata mais forte ao cargo é Ana Patricia Botín, a filha, de 47 anos, hoje presidente do Banesto, o primeiro grande banco comprado pelo Santander na Espanha, em 1994. A família Botín consegue manter as rédeas do Santander apesar de ter apenas 2,5% de seu capital. O restante está dividido entre mais de 2 milhões de acionistas minoritários -- nenhum deles com participação superior a 3%. O que dá o controle a Botín é uma intrincada teia de alianças no conselho de administração, reconstruída após cada grande aquisição.
Quem acompanha a história do Santander diz que Ana Patricia, considerada pela revista Fortune a nona mulher mais poderosa do mundo dos negócios, vem sendo preparada para o posto há anos. Formada em Harvard, trabalha no mercado financeiro desde os 22 anos. Começou a carreira no JP Morgan, em Nova York, e ocupou diversos postos de comando no Santander, entre eles o de diretora do banco de atacado do grupo. Além de ser considerada competente, ela também reúne algumas características pessoais vitais para o cargo: é conhecida como uma pessoa trabalhadora e, principalmente, tão ou mais ambiciosa que o pai. No entanto, por mais que queira ver a filha à frente do Santander, Botín é um executivo pragmático que, ao longo dos anos, concentrou esforços muito mais em expandir seus negócios do que em acomodar disputas familiares. Um exemplo marcante desse estilo de gestão ocorreu na fusão entre o Santander e o gigante espanhol Banco Central Hispano, em 1999. Um acordo feito entre a direção dos dois bancos previa que o comando da nova instituição seria dividido entre Botín e o então presidente do Central Hispano José María Amusátegui. Semanas após a fusão, a revista do jornal espanhol El País publicou uma reportagem sobre Ana Patricia com o título A Mulher mais Poderosa da Espanha. O texto gerou tamanho mal-estar entre Botín e os executivos do Central Hispano que colocou em risco a integração. Diante do perigo, Botín sacrificou a própria filha com sua demissão. Ela só voltaria ao Santander dois anos depois. O sucessor de Botín, seja ele quem for, irá herdar um gigante financeiro num cenário totalmente distinto do encontrado pelo atual presidente quando assumiu. O motor da transformação do Santander nos últimos 20 anos foi a necessidade imposta por um mercado que vem se transformando por completo. Com a perspectiva de que o sistema financeiro espanhol seria aberto a outros membros da União Européia em 1993, a impressão geral era que bancos alemães fariam a festa. As alternativas eram crescer ou morrer. O Santander foi à luta. Um estudo exclusivo concluído recentemente pela consultoria Bain & Company mostra que os bancos que mais deram retorno a seus acionistas nos últimos dez anos foram os que concentraram seus negócios nos segmentos de varejo e banco de investimento e tornaram-se líderes nos mercados em que atuam. "Ao analisar as 30 maiores instituições financeiras do mundo, descobrimos que ter foco faz uma enorme diferença nos resultados", diz John Ott, sócio da Bain em Londres. "Isso vale também para a expansão geográfica." O Santander se concentrou na Espanha e na América Latina, onde é líder no segmento de varejo. Os próximos passos estratégicos do Santander é o único assunto que gera mais especulações no banco que a sucessão de Botín. Muitos analistas consideram natural a expansão para a Ásia, continente em que o grupo ainda tem uma presença tímida. A previsão sustenta-se em ao menos um fato concreto: o banco começou a transferir executivos do alto escalão para lá. Um deles é Edvaldo Morata, vice-presidente de gestão de recursos do Santander no Brasil, que deve assumir, nas próximas semanas, a direção do banco em Hong Kong. Prever as próximas incursões de uma empresa é sempre uma tarefa ingrata, mas torna-se especialmente difícil no Santander, já que Botín empenha-se em confundir os interlocutores por meio de declarações públicas contraditórias. Um exemplo disso ocorreu pouco antes da compra do Abbey. Em janeiro de 2004, meses antes de fazer uma oferta pelo banco britânico, Botín escreveu um artigo no jornal Financial Times em que dizia duvidar dos benefícios de fusões transnacionais de bancos na Europa. Iludir o mercado, porém, está cada vez mais difícil para Botín. Ele pode até tentar esconder o jogo sobre quais serão seus próximos passos, mas todo mundo -- em especial seus concorrentes -- já sabe que ele sempre mira o topo. cover
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