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Tenho visto muitos pais de adolescentes com essa mesma sensação: de sentirem o árduo trabalho educativo exercitado durante anos ir por água abaixo. É preciso mudar essa interpretação para que os pais encontrem forças para continuar sua tarefa até o término dela. No período da adolescência, o filho passa por uma verdadeira metamorfose. O corpo, que lhe era tão familiar e também conhecido dos pais, passa a ser um desconhecido que muda a cada dia, e não do modo esperado e/ou idealizado. É como se fosse a metamorfose da borboleta às avessas: é esta que se transforma em lagarta. Esse é um dos motivos que colabora com o descuido corporal e da saúde que tantos jovens experimentam nesse período: como cuidar de um corpo que ele não conhece, não entende, não sente que é seu, como expor socialmente esse corpo? Com tantas mudanças no corpo, muda radicalmente a relação do filho com ele mesmo e com o mundo: já não sabe o que lhe importa, quais suas prioridades, qual sua identidade. Trata-se de um período em que o filho coloca em xeque o amor de seus pais – se ele mudou tanto e precisa se afastar para construir sua própria vida, será que continua sendo um integrante importante daquele grupo? Neste momento, cabe uma reflexão dos pais sobre a própria vida. O que fizemos com a herança educativa que recebemos? Nós nos apropriamos dela, não é verdade? Isso significa que muito do que aprendemos com nossos pais incorporamos, algumas coisas transformamos e outras, ainda, rejeitamos. Pois é exatamente no início desse processo que o jovem se encontra. Só que, de modo desajeitado, recusa tudo que veio dos pais porque ainda não sabe discriminar o que tem a ver com ele daquilo que não tem. É nessa hora que os pais precisam lembrar ao filho quem ele é no sentido familiar. Os valores ensinados precisam ser reafirmados, o autocuidado, em todos os aspectos, precisa ser relembrado e a tutela exercida com firmeza cedendo espaço, de modo paulatino, à negociação e à autonomia. Vou dar alguns exemplos: banho diário e higiene dental continuam sendo atos obrigatórios. Para tanto, os precisam usar toda sua autoridade: não deixar o filho ir dormir sem tomar banho. Ele irá resistir, fazer cara feia, ameaçar, burlar (deixar o chuveiro aberto um tempo sem se banhar) etc. Nada disso deve assustar ou demover os pais de sua tarefa. Aos poucos, o filho aceita a idéia que se trata de um bem para ele e não para os pais. Reunião e convivência familiar? Os pais devem exigir o que consideram o mínimo, pois precisam entender que o filho precisa de momentos de solidão ou com os amigos. Ele está trocando de turma, afinal. Exigir um mínimo não significa obrigar que ele faça isso de bom grado: basta que esteja presente. Aos poucos – quem sabe? – poderá apreciar esses momentos. E é assim, com os pais reafirmando a educação que deram, mas aceitando que o filho seja diferente deles ou do que sonharam, é que a tarefa educativa pode ser finalizada. Tudo o que o filho adolescente não pode é ser abandonados pelos pais nesse difícil e excitante trajeto de sua vida. Recomendo que assistam ao filme “Aos treze”: é uma grande fonte de reflexões, compreensões e identificações para os pais que atravessam esse período. Rosely Sayão
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