SÃO PAULO - Aos 27 anos, a turismóloga Lauanda Ferreira Sales decidiu investir em uma especialização em Barcelona, na Espanha. Antes de voltar ao Brasil, no entanto, esticou até Dublin, na Irlanda, para fazer um curso de inglês de três semanas. ''''Você aprende muito mais viajando.''''
Assim como Lauanda, 71 mil estudantes saíram do País no ano passado para se aprimorar em um idioma estrangeiro, segundo dados da Belta, associação que reúne empresas do setor. Uma surpresa: os Estados Unidos, clássico destino de high school, perderam a liderança para o Canadá. No ano passado, enquanto 9 mil pessoas procuraram escolas americanas, 12 mil escolheram as canadenses.
Lauanda, por sua vez, optou pelo destino que mais cresceu nos últimos tempos: Dublin. Só neste ano, a empresa de intercâmbio STB prevê aumento de 60% nas vendas para a capital irlandesa. Os motivos são muitos. O governo local vem investindo nesse mercado - 130 mil estudantes estrangeiros vão ao país e movimentam cerca de 300 milhões. Ao todo, há 115 escolas especializadas, todas aprovadas pelo Departamento de Educação. ''''É um ensino de qualidade'''', afirma a presidente da Belta, Tatiana Mendes.
Além disso, o destino atrai os brasileiros pelas facilidades. Mais barato que Londres, tem eficiente sistema de transportes, é seguro e conta com inúmeras opções de lazer - que vão de museus a pubs movimentados. Isso sem falar que é possível trabalhar e estudar, sem a necessidade de visto.
Mesmo com tantas vantagens, apenas 2.500 brasileiros estão fazendo inglês na Irlanda. Em escolas como a Emerald, os brasileiros ainda são minoria. Mas o diretor Mauro Biondi explica que o número vem crescendo ano a ano. ''''Os brasileiros são os mais aplicados. Levam o ensino a sério e se dão bem com todos. Acabam criando uma unidade na classe.''''
Italianos e espanhóis predominam, especialmente no verão. Nessa época, o número de interessados em programas de até quatro semanas cresce tanto que a Emerald cria uma filial. Se você quer evitar contato com brasileiros para não cair na tentação de falar português, não se preocupe. O maior risco é adquirir certo sotaque italiano...
Casa de FamíliaEscolher a hospedagem, segundo Marcia Mattos, gerente do departamento de Cursos no Exterior da STB, depende muito do perfil do estudante. Em Dublin, a maioria acaba ficando em casa de família. ''''Há regras, mas ao mesmo tempo se cria vínculos de amizade.''''
A Emerald, por exemplo, conta com um departamento exclusivo para tratar de acomodação. No verão, a maioria fica no Trinity Hall, residência dos estudantes da universidade local, desocupada no período. Para os cursos de longa duração, porém, as casas de família são mais procuradas.
''''Temos mais de 2.500 famílias cadastradas'''', diz o diretor Mauro Biondi. Segundo ele, todas são entrevistadas pela escola e os alunos ajudam no processo. ''''Se alguém reclama de uma família, podemos até excluí-la.''''
Ann Shinnick, que hoje trabalha na recepção da escola, abrigou estudantes estrangeiros em sua casa durante dez anos. ''''Parei de trabalhar quando meus filhos nasceram. E ter um estudante em casa me mantinha ocupada.'''' A experiência, segundo ela, foi positiva para a família toda. ''''Abriu meus filhos para o mundo. E influenciou na educação, porque eles sabiam que tinham de respeitar o novo integrante da família.''''
O último estudante que Ann recebeu veio do Japão, em 1997. ''''Ele se casou neste ano e pagou tudo para que eu e meu marido pudéssemos estar na cerimônia. Foi emocionante.'''' Ann conta que deixou de recepcionar estrangeiros por falta de tempo. ''''Gosto de me dedicar, criar um ambiente onde a pessoa possa trazer os amigos para um chá.'''' COLABOROU CAMILA ANAUATE