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Chineses reclamam de perseguição em SP devido à fama de Law Kin Chong

A história de Law Kin Chong, rotulado pela Polícia Federal como "o maior contrabandista do país", bem que daria um filme diferente da história contada a cada desdobramento policial. No último episódio, o prefeito paulistano, Gilberto Kassab, incorporou o papel de xerife, chamou o chinês naturalizado brasileiro de "bandido" e prometeu expulsá-lo da cidade "por bem ou no camburão".

PERSONAGENS DA HISTÓRIA
Antônio Gaudério - 21.dez.2005/Folha Imagem
Law Kin Chong é transferido para São Paulo após ser detido em Brasília em 2005
Rivaldo Gomes - 14.nov.2007/Folha Imagem
O prefeiro Gilberto Kassab senta sobre produtos encontrados no shopping de Law
Flávio Florido/UOL
O consul-geral chinês em São Paulo, Sun Rongmao dá entrevista sobre comunidade
Flávio Florido/UOL
Ana Bang ajuda a retirar produtos de sua loja no Shopping Pari, que está interditada
A produção cinematográfica chinesa Plastic City, que será filmada em São Paulo nos próximos meses, é inspirada no oriental naturalizado brasileiro.

No roteiro escrito em parceria por Fernando Bonassi e o diretor Yu Lik-Wai, o líder do mercado negro em uma apocalíptica cidade é preso após ser gravado subornando uma autoridade, dando espaço para uma disputa pelo poder nesse negócio, com direito a locações na Liberdade e na marginal Pinheiros, cartões-postais paulistanos.
Mas, se o foco mudasse para o outro lado, apareceria um garoto que aos três anos migrou com a família de Hong Kong para o Brasil, foi pasteleiro no Pari e virou o rei do comércio popular no centro do São Paulo: uma história de sucesso na qual ele confina lojistas em boxes de divisórias em grandes galpões, enquanto a PF prende o protagonista e sua família em celas a cada batida atrás de produtos piratas.

O problema desse personagem é que nem ele nem seu par romântico e administrativo (Miriam Law) falam com a imprensa. Cabe a um advogado -e Law está cercado deles- o papel de porta-voz.

"Há 20 anos ele não importa nada. Com toda a polícia atrás dele, ele não ia contrabandear. Ele achou seu filão no aluguel de boxes em seus shoppings", justifica Miguel Pereira Neto, que tenta o relaxamento da prisão em que Law se encontra desde 14 de novembro, quando o Shopping Pari, administrado por uma empresa da família, foi lacrado após as autoridades encontrarem produtos falsificados e sem nota fiscal por lá.

"Eu mesmo custei a acreditar na história de Law por tudo o que sai na TV, mas me convenci", confessa o advogado. "O prefeito aparece diante das câmeras dizendo que ele não paga impostos, e Law gasta R$ 1 milhão mensal com tributos. Em que acreditaria?', pergunta Pereira Neto.

Responde o presidente da Associação Cultural Chinesa do Brasil, Fernando Ou: há uma perseguição política. "Para nós, Law lutou, trabalhou e conseguiu ser um empreendedor bem-sucedido. Como 99% de nossa comunidade, ele trabalha agora na legalidade", reclama Ou. "Qualquer coisa que acontece agora, são os chineses. É preconceito. É uma injustiça atribuir à colônia chinesa o contrabando no Brasil. As autoridades falam, e a mídia fica do lado deles", completa.

Ele lembra o prefeito carioca, César Maia, falando que a máfia chinesa estaria atuando no Rio quando o último registro da ação dessas gangues é de 2002, em incursões vindas de Ciudad Del Este (Paraguai) para amedrontar comerciantes com bons pontos. Mas chacinas como a de 2000 (três chineses metralhados em restaurante da Liberdade) parecem distantes. "A economia melhorou e há mercado para todos".

O presidente da principal associação de comunidade calculada em 150 mil pessoas (duplicou nos últimos 20 anos), contudo, pede uma ação do governo de seu país. "As autoridades chinesas têm que mostrar o outro lado. Pressionar o governo brasileiro para tratar melhor a comunidade no Brasil", sentencia Ou. A economia da comunista China cresce 10% ao ano com a receita capitalista e se tornou a maior importadora de produtos agrícolas do Brasil.

Esse trunfo é o caminho dos diplomatas chineses para reverter a imagem dos chineses no Brasil. "Se nas ações jurídicas em nível básico não resolverem, vamos subir de esfera. Procurar as autoridades para conversar. Tenho a intenção de falar com Kassab", afirmou ao UOL o cônsul-geral da China em São Paulo, Sun Rongmao.

Vários compatriotas dele apelaram ao consulado por ajuda. Um membro da comitiva foi Ana Bang, proprietária da loja Paraíso das Flores, que estava há dois anos aberta no Shopping Pari vendendo produtos de decoração, 60% deles de fabricação nacional. "Outro dia um cara falou que chinês é tudo contrabandista. Fiquei com muita raiva. Agora só porque tem rosto oriental é bandido. Fico nervosa", desabafa a imigrante que vive há 12 anos no país, recita de memória as siglas dos impostos que paga e tem sete funcionários registrados.

OS SHOPPINGS DE LAW
Flávio Florido/UOL
Funcionária retira peças de decoração vendidas no interditado Shopping Pari
Flávio Florido/UOL
Grupo de chineses chegam ao Shopping Pari para ver o que restou de blitz da PF
Flávio Florido/UOL
Consumidores fazem compras de Natal em shopping de Law no centro paulistano
Flávio Florido/UOL
O Shopping 25 de Março foi o primeiro em que Law instalou centenas de boxes
Seu marido se revolta em ter de guardar as mercadorias que venderia neste Natal para o próximo. Isso se tudo se resolver até lá. "É como se uma pessoa cometesse um crime, e a polícia prendesse o infrator, a família, a vizinhança e o bairro todo. Estamos nos sentindo assim. Ainda mais que a polícia baixou aqui com armas pesadas", diz Fernando Bang, que jura que assinou o contrato de locação sem saber que a administradora do shopping era de família Law.

"Tivemos que acalmar vários patrícios que reclamavam que a prefeitura fechou suas lojas, enquanto comerciantes brasileiros ou libaneses com os mesmos produtos continuavam abertos. É fácil escolher um alvo, um bode expiatório", fala o cônsul-geral com sotaque de Macau, antiga possessão lusitana na costa chinesa. "A mídia não está do nosso lado, não temos domínio sobre ela", lamenta o funcionário do governo chinês que aqui não seja como em seu país-natal.

Sun acha os asiáticos devem demostrar que trazem investimento e empregos para o Brasil, seja com as pequenas lojas seja com suas novíssimas multinacionais. "Somos uma comunidade muito fraca, uma minoria que pode ser estrangulada. Cada lado tem que fazer sua parte. As autoridades brasileiras têm que ser mais tolerantes e deixar que sobrevivam os comerciantes, que devem seguir as regras", completa.

O cônsul comercial, Yu Xiao, reclama que as leis comerciais do Brasil são muito complicadas. "Além da barreira da língua, o imigrante tem de entender a legislação, com muitas brechas. Vamos cobrar das autoridades brasileiras uma assistência jurídica", afirmou Xiao.

Quando o assunto deriva para Law, o cônsul mostra que o detido está fora de sua jurisdição. "Esse senhor é brasileiro, foi criado aqui, na cultura local, tem documentos brasileiros. Ele está prejudicando o empresário chinês que está investindo aqui, associando a palavra `bandido´ a eles", sentencia.

A trajetória de Law
Law Kin Chong, 47, ganhou fama nacional em junho de 2004 quando foi preso após ser gravado tentando subornar o deputado Luiz Antonio Medeiros (PL-SP), na época presidente da CPI da Pirataria. Ele teria oferecido US$ 1,5 milhão para que seu nome não fosse incluído no relatório. Foi condenado a quatro anos de reclusão.

Viveu três anos atrás de grades entre Brasília, Guarulhos e no Instituto Penal Agrícola de Bauru (343 km de SP), onde preferiu trabalhar no refeitório do local, bem diferente dos restaurantes chineses finos que ele freqüentava na Liberdade e na Vila Nova Conceição.

Em junho passado, passou a cumprir a pena em regime aberto, tendo que voltar antes do anoitecer para sua mansão perto do estádio do Morumbi e resguardada por cães fila. Ele acordava cedo todos os dias e ia a seu escritório dentro do Shopping Pari, que virou seu QG, substituindo o antigo na rua Barão de Duprat, na região comercial mais movimentada do País, com 700 mil pessoas consumindo nos dias de pico.

Na área, ele tem dois shoppings, o 25 de Março e o Mundo Oriental, nos quais introduziu a fórmula de boxes de compensado, que trouxe da Tríplice Fronteira quando morou por lá. A receita lucrativa foi copiada em áreas mais nobres como os locais chamados Stand Center e Promocenter, na região da avenida Paulista.

A ida para Ciudad Del Este com os pais foi providencial após Law ter sido detido por portar relógios falsificados quando tinha 20 anos. Nessa época, ele descia de moto até o porto de Santos, remava em uma canoa até barcos ancorados e enchia mochilas de relógios falsificados.

Aos 25 anos, montou seu negócio próprio na Galeria Pagé, prédio em que chovia das janelas produtos eletrônicos para as ruas em dia de inspeção policial. Lá, Law vendia relógios e uísque. E lá conheceu Hwu Su Chiu, que virou Miriam Law e gerou os dois filhos do casal, Thomas e Henrique, que depois estudaram direito. Todos, incluindo o irmão de Law, Júlio, já estiveram detidos ao longo das investigações.

Para a polícia, Chong continua na atividade até hoje e usa aluguel nos shoppings como fachada. O cálculo dos policiais é que ele chegou a gastar 10% de seu ganho mensal, algo em torno dos R$ 50 milhões mensais, em propinas para 200 funcionários públicos como fiscais e policiais. Ao ser preso após a gravação da conversa com Medeiros não perdeu a postura. "É uma brincadeira de mau gosto", disse aos microfones.

Liberado da detenção em junho passado, ele já imaginava retomar seu êxito comercial. "Isso aqui vai ser a Nova 25 de Março", se vangloriava dias antes de ser novamente detido. Encravado no bairro decadente que virou entreposto de produtos das "lojas de R$ 1,99", o Shopping Pari era planejado para abrir 2.000 boxes e receber 10 mil consumidores durante 24 horas - a idéia era até rivalizar com a Feira da Madrugada, realizada pelos camelôs no vizinho Brás, bairro no qual Law tem um quarto shopping no mesmo estilo e também interditado.

Entretanto, no dia 14 de novembro, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, liderou uma ação com policiais e fiscais (a Polícia Federal só foi acionada depois). As autoridades afirmaram que encontraram contrabando suficiente para encher 100 caminhões, mas os lojistas dizem que não saíram mais que três deles.

Com as câmeras em sua frente, Kassab se entusiasmou: "Senhor Law, o senhor é um bandido, e todo mundo sabe. Sai fora da cidade de São Paulo. Se não sair por bem, vai sair de camburão. Enquanto eu for prefeito de SP, esse senhor Law não pisa aqui."

Law voltou para trás das grades, investigado ainda por lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, contrabando e evasão de divisas. Já os lojistas do Shopping Pari passaram a fazer plantão diante das portas de ferro com a placa de lacrado, protestando na prefeitura, no consulado e com o administrador do local, Antônio Carlos Campanhã.

Até o deputado federal William Woo (PSDB), policial e ex-vereador, foi procurado pelos lojistas preocupado que quebrariam sem as vendas de Natal. Representante ideal da comunidade oriental (pai chinês, mãe japonesa e mulher coreana), o político acha que se pode recuperar a imagem da comunidade chinesa, mas não a de Law. "Personalizar é mais fácil. Ele se transformou em um ícone. Ele é a bola da vez", afirma o parlamentar.
Rodrigo Bertolotto

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